O USO DO TEMPO

Sumário: 1. Interpretando o tempo; 2. Algumas perturbações nos esforços de usar o tempo; 3. Compartilhando sugestões.

  1. INTERPRETANDO O TEMPO:

01. QUANTIFIQUEMOS: Vamos excluir os tempos astronômicos, a luz das estrelas que vemos e…já morreram, etc… Nos concentremos em nós mesmos. Assim, para gerir o nosso tempo, podemos matematizar a nossa duração, a esperança de vida ao nascer (um cálculo usado pelas seguradoras para … continuarem ganhando com nossas mortes). Portanto, se a esperança de vida do brasileiro ao nascer (IBGE-2022), era de 75,5 anos. Este, é o maior parâmetro de “gestão” que temos. Assim, usando a estimativa de vida do brasileiro, teremos 27.557,5 dias ou, 661.380 horas de vida. Quanto disto realmente sentimos ocorrer??

02. No nosso cotidiano felizmente, ignoramos estes números, não vivemos administrando contas de “saldos de dias de vida” (não somos vendedores de seguros). Somos uma espécie social, e na nossa infância, ao longo da vida e na velhice, outros compartilham conosco o usufruir de nossas tempo de vidas e, o correr do tempo, sem pensar o tempo que viveremos;

03. A que nos referimos quando falamos de tempo? A uma forma de medida associada a seqüência da ordem de eventos naturais e sociais. O fato de que o dia seja sucedido pela noite e sempre amanheça de novo, são os comprovantes naturais do movimento do tempo, e tão importantes que dependemos do no nosso ciclo circadiano; Também os momentos sociais significativos, como o nascimento, o trabalho, a morte, festas religiosas e cívicas, etc.., são comprovantes, individuais e sociais, do movimento temporal;

04. A sistematização dos eventos temporais, o consenso sobre os mesmos, é um ato prático e um acordo social, que gera a nomenclatura da contagem: séculos, décadas, anos, meses, semanas, dias, horas, segundos, etc.., necessária, para o funcionamento de nossas vidas em sociedade. A fragmentação da medição do tempo, para ter utilidade social tem que ser acordada e confiada a instrumentos de inquestionável precisão para todos. Daí a apaixonante evolução dos relógios, desde a necessidade de medir a longitude nas navegações para não se perderem, passando pelos relógios públicos das catedrais, até a atual portabilidade individual no pulso ou, no bolso com o smartphone. No entanto, a percepção pessoal do tempo, embora mensurada e compartilhada por instrumentos precisos, sempre tem subjetividade individual.

Relógio da Catedral de Estrasburgo – França. Imagem: Wikipédia

05. Como pactuamos a contagem do tempo com intrumentos apropriados, assim o tempo transcorre impositivamente igual para todos. As horas do dia, os dias da semana, as semanas do mês, etc.., são momentos igualmente marcados, imutáveis, obrigatoriamente compartilhados., afinal, “o sol nasce para todos” porém, o dia, não é usado da mesma forma por todos, o que gera as pessoais diferenças de percepção do seu passar.

O tempo é sentido no presente, com as recordações dos eventos passados e, a percepção sobre o futuro e suas tendências. Desta forma, fica óbvio que, o passado + o presente, são as bases das possibilidades vindouras. Assim como o futuro, é a possibilidade de alteração do presente, a mudança do agora, ou para pior, ou para a sua manutenção ou para melhor, dependendo de como interpretamos nossas satisfações atuais, nossas possibilidades e agirmos.

06. A inserção social do indivíduo, no sistema de produção, em determinado espaço geográfico, numa categoria social, contexto familiar, idade biológica, seus momentos de existência no trabalho, as horas do dia e da noite, enfim, os diferentes momentos de sua vida, influem no seu uso-sensação do tempo. A percepção, com maior ou menor intensidade do fluir do tempo, relaciona-se com as ações presentes, que objetivamente sejam mais ou menos essenciais à vida, ao bem-estar do indivíduo e, do seu entorno social próximo;

2. ALGUMAS PERTURBAÇÕES NOS ESFORÇOS DE USAR TEMPO:

07. Querer ensinar a gerir o tempo, é uma meia-verdade, quase uma falácia. Quem o faz, ignora a realidade de que não somos robôs programáveis (ver neste blog Os robôs, novos trabalhadores) ou, seres totalmente racionais (como o imaginário homos economicus). Temos emoções, o sentimento individual do tempo, está sempre imerso nos diferentes momentos das relações sociais. Talvez, para o imaginário e solitário Robison Crusoe, fosse mais fácil gerir seu tempo, até que surgiu o Sexta Feira para compartilhar sua vida. Afinal, o nosso uso do tempo, está sempre determinado pelas atividades em que estamos envolvidos, pelo ambiente social em que estamos, agimos e trabalhamos. Portanto, o tempo de nossas vidas tem seus ritmos, intensidades e características, pautadas por nossa luta vivencial, para satisfazer nossas necessidades.

08. Gerir o tempo presente e a vida diária, é o que todos fazem. Se não o fizessem, o cotidiano seria insuportável, conflituoso, caótico. Portanto, querer ensinar as pessoas a gerirem o seu tempo, é desnecessário ou simplório; Apenas se pode sugerir alternativas de melhoria do uso do tempo, para os que podem “ter um tempo”, para pensar o que farão no futuro, pois muitos não tem tempo nem para isto.

09. No entanto, se acreditas no destino pré-fixado pelos astros, que tudo já está escrito e previsto em tua vida, não precisas nem te preocupar, com administração de tarefas no transcorrer do tempo. Podes adotar o CARPE DIEM, como um simplório “curta o dia”. No entanto, recordemos, que a frase de Horácio, “carpe diem quam minimum credula postero” é, “colha o dia e deixe o mínimo para o amanhã“. São partes de frases de seu diálogo, com quem dedicava seu tempo aos astros para prever o futuro e, Horácio, gentilmente discordava.

10. Um dos grandes sinalizadores do passar do tempo, é a morte. Entre o momento de estar vivo e, a incerteza de quando ocorrerá a morte, vivemos as maiores ou menores dificuldades de decisões. É difícil entender o fim da existência e isto, é um fato para buscar viver bem o presente. No entanto, para a maioria, a estimativa de vida do brasileiro, não é a que usamos no primeiro parágrafo; A maioria, que acredita em vida depois da morte, sua dimensão de tempo pode ser infinita. Nesta caso, a gestão do tempo tem um horizonte futuro incalculável. Para os praticantes de religiões, o uso do tempo no presente, nas práticas religiosas, como tempo para rezar todos os dias voltado para Meca, o domingo na igreja, os feriados religiosos, etc.., são momentos necessários no presentes, pois se relacionam com o futuro de sua vida… depois da morte. Isto é um fato cultural, um indicativo de que não temos total autonomia na gestão do nosso tempo.

11. E onde fica o livre arbítrio? Ele é exercido cotidianamente mas, no pouco espaço do tempo da vida privada, individual, familiar. De modo geral, ele é sempre menor, quando comparado com as imposições do mercado, sociais e culturais da vida mas, existe, nas escolhas pessoais e influenciando as sociais.

12. Não esqueçamos, que sem a rotina diária “pré-fixada”, bem como a previsibilidade do que fazer no curto prazo, a vida seria difícil. Quando crianças, decidiram por nós a hora do banho, quando tomar a vacina, quando ir à escola, e assim vivemos; outros fizeram o calendário sobre o dia de nosso serviço militar, quando procuramos trabalho, quando marcaram o médico para nos curar, que dia vence as contas, o dia de ir rezar etc.. Estes exemplos, de como o tempo em nossas culturas nos influencia, servem para que usemos o calendário, o relógio e, possamos fazer uso da agenda, que anota escrita os compromissos extras da vida cotidiana. Vivemos com o crescimento de instrumentos de controle do tempo, iniciando pela popularização do relógio individual, passando pela agenda escrita e agora pela síntese dos dois nos smartphones, que carregamos no bolso.

13. Reiteramos, que tempo é mensurado de forma igual; no entanto, é sentido de forma diferente. Os tempos para um desempregado na fila do SINE, para um adolescente fazendo vestibular, para um apaixonado esperando pela amada, para um empresário lendo o seu relatório de lucro, é são diferentes. O tempo vivido em horas de deslocamento em transporte coletivo para muitos, é diferente que andar de helicóptero para poucos, etc… Sabemos que, nas 24 horas diárias, iguais para todos, tem pessoas que tem muito menos livre arbítrio, de como usar o seu tempo, do que uns poucos. Esta desigualdade para satisfazer necessidades vitais e culturais, resulta em diferenças de possibilidades de planejar um futuro melhor.

14. Não podemos mudar o nosso passado. O passado ocorrido das sociedades, depende agora da interpretação de fontes e opiniões de Historiadores, podendo até ter algumas mudanças. Mas se tratará sempre de reinterpretação de fatos ocorridos. Nossos fatos individuais passados, não podemos mudar, foram os formadores de nossa vida presente. Portanto, sabemos, que trata-se de agir agora, para nos mantermos e/ou mudarmos nosso futuro. Como dizia Érico Veríssimo: “A inteligência é o farol que nos guia, mas é a vontade que nos faz caminhar”.

3. COMPARTILHANDO SUGESTÕES:

15. Lembremos a caderneta de agenda, agora disponível no seu smartphone. A velhas agendas de papel para mim , são uma síntese de anotações da minha vida, pactuadas com o tempo do calendário oficial. Nas mesmas estão todos os dias, sendo assinalados os domingos, feriados, etc.. da minha vida social, para nos adaptar nossas necessidades individuais à mesma. Portanto, a agenda anual impressa ou eletrônica, é um alerta de uso temporal da sociedade em que vivemos. Ela já dá a pauta geral anual e implificada, do tempo em nossas vidas. Guardo as velhas agendas como recordações e, algumas das anotações, que deveriam ser importantes naqueles momentos, nem consigo mais identificar qual a razão de terem sido feitas;

Foto: Antigas agendas. Silvio T.Monteiro

16. Portanto sabemos que gerir o tempo, começa domesticando a agenda ou seja, assinalando na mesma os compromissos mais relevantes, leia-se inesperados, eventos domésticos, da nossa família e do trabalho que, é impositivo fazer. Isto pode ser um auxiliar genial, para não sermos surpreendidos pelo esquecimento, no meu caso, … de aniversários familiares ou de amigos;

17. Saibas onde estás, e o que fazes do teu tempo. Para te ajudar, volte a matematizar, agora as tuas 24 horas. Quantas horas do teu dia, vendeste no emprego? ou, quanto tempo gastas ao dia vendendo teus serviços? ou as mercadorias que criaste? Quanto gastas te locomovendo na cidade do trabalho p/o emprego e vice-versa? Vendes tempo de trabalho em dois períodos ou, tb. tens jornada noturna? Quanto dedicas às compras? Deslocamento para a escola? Atividades de lazer? Num dia útil, quanto sobram de tuas 24 horas. Diminua teu período de descanso, alimentação, higiene; Fica suficiente, ou pouco? O que restou para a família, amigos, aperfeiçoamentos, o lazer? Trabalhas no sábado ou fins de semana? Conheces o uso do tempo, da tua vida? saber estas quantidades de tempo, é que te permitem conhecer a ti mesmo;

Modelo do Canva

18. Seguindo … sugestões interessantes, o importante, é fazer uma lista do que de dá satisfações e alegrias e, o que te dá tristezas e frustrações. Talvez não possas equilibrar, nem correr buscando o sonho da falsa felicidade permanente. Pois ela não pode sem sentida, sem os momentos de contrastes com a tristeza. No entanto, ao fazer esta listagem pode ajudar mas, nunca esqueças que a felicidade, é uma sensação individual, não é resultado apenas de um simples esforço pessoal, a felicidade depende sempre do contexto social próximo a ti. Não tens felicidade quando teus próximos estão doentes, infelizes, tristes, etc…;

19. Caracterize a tua perspectiva de futuro (O QUE QUERES). Pois, se não tens desejos, aspirações, não precisas otimizar o uso do teu tempo, deixe que os acontecimentos aconteçam e, vá improvisando. Ninguém prova que correr em busca de desejos, resulte em felicidade, pode ser estressante, resultar em cansaço. (Podes parar aqui tua leitura e obrigado);

20. Conhecer o que queres é uma partida e, pode ser mais difícil para alguns. Mas a vida é tua e tu decides, tu conheces teu pequeno ou grande “grau de liberdade”, tuas possibilidades e necessidades pessoais e familiares, lembre o livre arbítrio e decida. Recordas, que vives num mundo de consumismo, que induz a querer o supérfluo e desconhecer o essencial com a mentira de que consumindo…serás + feliz. Vivemos num mundo em que a aparência é mais valorizada que a essência, o que nos dificulta saber as necessidades reais e, traçar prioridades. Neste mundo, o lazer está mercantilizado e, a aparência do bom lazer é sempre… o mais caro, sendo esquecida outras alternativas. No nosso vocabulário o tempo dedicado ao lazer é tempo “morto”. No entanto, deitar numa rede e curtir uma soneca reparadora, é estar … morto?? Que diria nosso querido Mario Quintana sobre isto? Recordo o poema: DA PREGUIÇA –

Suave Preguiça, que do mau-querer

E de tolices mil ao abrigo nos pões…

Por causa tua, quantas más ações

Deixei de cometer.

21. Liste e faça uma triagem em tuas prioridades. Com isto, logo desvendas o caminho, as dificuldades e tarefas que enfrentarás. Separe as tarefas urgentes das importantes. Verifique como se relacionam com a tua rotina.

22. Se aprofundares a análise, verás que nas urgentes, existem ações inadiáveis, imediatas, que é conveniente fazer para não comprometer o alcance de tuas prioridades (cortar gastos, comprar ferramenta, adquirir novo conhecimento, buscar informação, dialogar, fazer exercícios,), separando das demais, que tenhas menos urgência.

23. As tarefas urgentes, se relacionam com as importantes. No entanto estas são, as que não ocorrendo, dificultarão realmente o alcance do que julgas prioritário. Por esta razão, devem ser bem configuradas e priorizadas;

24. Para exemplificar, se gostas de rascunhar, use o retângulo p/melhor precisar decisões, com quatro categorias essenciais: 1. Abandone, adiar; 2. Delegar; 3.Agir, e, 4. Fazer agora. Use isto, no caso que estejas pensando em maior escala de uso do teu tempo, coordenando uma equipe complexa ou, mesmo no âmbito familiar ou associativo:

25. Se quiseres, organize agora teu cronograma e parta para a execução. Não esqueça que cada atividade de trabalhos em equipes, deve ser uma unidade de atenção integral, com responsável identificado e monitorada, ou pela Coordenação ou, em reuniões periódicas para avaliar e… recomeçar o ciclo. Isto nu mundo do trabalho, é sempre uma forma de tentar dominar o uso do teu tempo, antes que outros o façam para ti.

26. EM TEMPO, Isto não é uma fórmula de bolo, recordamos que existem contextos muito diferenciados, tais como: i. Fica óbvio dizer, que é uma falácia ensinar gestão de tempo para empresas privadas, as mesmas são pautadas sempre pela concorrência e tem que otimizar o uso de suas máquinas, insumos e tempo dos empregados, seu objetivo final é o lucro assim, para elas poupar tempo é fazer + $$; ii. Na gestão pública, gerir bem o tempo é essencial. Mesmo pautada pelo orçamento, divisão de trabalho, etc.., a área pública, ao não ter a finalidade única do lucro mas, a múltipla finalidade social, vive o permanente dilema de equilibrar necessidades sociais diversas, muitas vitais, com a escassez de recursos e, a diversidade de metodologias para o alcance dos objetivos; o que torna relevante a participação em equipes para planejar o uso do seu tempo; iii. O setor da área de auto-gestão (Associações, Cooperativas, Sindicatos, ONGs,..) para estes, que dominam seus ingressos, ter as prioridades e traçar as tarefas, é uma necessidade permanente. iv. Em tua vida familiar, este microcosmos de alegrias e garantias de reprodução da espécie, onde é provável que já exercites isto de forma inconsciente, informal em tua justa luta diária de construir um futuro melhor. Vivemos no tempo e no espaço, ordenar o nosso tempo ajuda a melhor usarmos os momentos, fazendo com que a vida seja mais bela.

Deixe um comentário