ÁGUA…para a vida ou, para os negócios?

01. Perceber o nexo entre fatores essenciais, sempre ajuda. As relações entre a energia, água e agricultura, são conexões permanentes para a vida que passam desapercebidas por muitos; Recordemos que, com a agricultura deixamos o nomadismo e, depois que nossa espécie começou a ser sedentária, com esta inovação da garantia de fluxo permanente de alimentos, é que passamos a viver em maior número e,… por mais tempo.

02. Afinal, as primeiras civilizações surgiram, pela necessidade de gestionar a cooperação e evitar conflitos, em torno dos nexos entre os usos da água e do solo agricultável, resultando nos alimentos necessários para a vida melhor. A percepção da importância da energia solar nestas relações é comprovada pelas diferentes denominações das divindades solares, recordemos alguns: no Egito Amon, Aton; na Pérsia Mitra; de Jupiter greco-romano, todos lembram; Inti, divindade asteca, está presente sempre nos Andes, etc.. As divindades das chuvas, não faltam, como o conhecido Zeus, Indra na Índia, e Apa Illapu para os Incas; De modo geral a “divindade” atual das chuvas para os católicos é São Pedro, com a sua festa dos navegantes, misturada com iemanjá. Isto demonstra que as relações entre energia solar, clima e seus efeitos na vida vegetal e animal, sempre tiveram narrativas e funções de sagrado. A gestão destes fatores, apoiadas pelas religiões com as divindades solares, da mãe terra, dos ciclos do tempo, originaram costumes, governos e legislações e isto não pode ser esquecido pois, faz parte da história da humanidade.

Imagem: BBC Brasil – https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/03/150302_agua_agricultura_pai

03. O Sol nasce para todos, em sua capacidade de emitir energia regular e constante para os sistemas dos planetas que o orbitam; No entanto, no ciclo das águas temos mais diferenciações e irregularidades preocupantes, elas tem distribuição em proporções desiguais sobre a superfície terrestre, nos locais em que vivemos; Isto origina um esforço permanente, desde o passado tribal, de uma necessário observação sistêmica das inter-relações das partes com o todo. Conhecer o tempo (ventos, frio, calor, umidade, céu nublado, chuvas,..), se Inicia com as observações empíricas, sistematizadas pelos velhos da tribo, evoluindo para os registros hidráulicos, uso dos aparelhos meteorológicos, até salto recente dos monitoramentos por satélites. Conhecer estes nexos, e usar suas informações, sempre foi, e continuará sendo, o problema prático permanente de nossa espécie para viver no planeta; Sem compreender o comportamento do clima, temos ameaças, incertezas para a coleta e criação de espécies, para alimentar e manter a vida; Os estudos da água, do clima, acompanham nossa espécie, com esforços cumulativos de dados, de novas hipóteses, de novos testes, poucos percebem que os mesmos estão relacionados com o avanço do conhecimento objetivo, sem o auxílio do mesmo, temos incertezas em nossa existência. Qual a razão desta necessidade humana? Da importância vital de prever o comportamento futuro do clima? Sem isto, temos incertezas sobre o futuro das nossas vidas, de outras espécies que se inter-relacionam e dependemos. Antes e agora, precisamos acompanhar as tendências para sabermos o que aperfeiçoar, o que corrigir e, para continuarmos a viver;

04. Estas razões óbvias, permanentes na evolução da humanidade, fazem o acesso à ÁGUA ser considerado, desde sempre, uma necessidade vital, de todos, um direito universal. Saciar a sede, é condição essencial, natural como respirar; Ela não está escrita, faz parte da gênesis das espécies e da sociedade humana; Surge daí a terminologia atual, recurso de uso comum (RUCs), relacionada com as denominadas funções públicas de interesse comum;

05. Sem água énão temos vida. Sua necessidade permanente em nossa existência, resulta em esforços e tecnologias, desde as vasilhas de barro ou, os odres de peles de animais para carregar água, evoluindo pelos canais, complexos aquedutos, pelos bombeamentos, tratamentos, até chegar a água corrente nas torneiras de sua casa ou apartamentos em arranha-céus. A facilidade de abrir a torneira, para grande parte da população, resulta numa falha perceptiva da relação água-clima? Temos uma aparente “desconexão”, no ambiente urbano, entre as relações das precipitações e abastecimento de água. Se, no meio rural, onde o nexo entre agropecuária e clima é cotidiano, a sensação da chuva é diferente no meio urbano; Na cidade, a percepção da chuva, se relaciona com os alagamentos e inundações, com as seus efeitos nos deslizamentos, desabamentos, danos materiais e vítimas. Mas, quando desaparecem, quando deixam de ser notícias na mídia, ficam sendo um triste problema existencial para os que foram afetados pelos mesmos. As populações urbanas, quando falta água nas suas torneiras, culpam inicialmente os “serviços urbanos de água” , o que pode ser real, muito mais do que o clima, pela diminuição hídrica nas bacias como é um exemplo a tragédia recente de Montevidéu, que teve que usar água salina de seu porto, para manter o abastecimento da cidade e, distribuir água potável engarrafada, para escolas, creches e hospitais. Enfim, é um fato, o habitante da cidade, parece ter menor sensibilidade às mudanças climáticas, as flutuações da oferta hídrica, com a água segura que sai de sua torneira, do que o que vive e trabalha no meio rural.

06. Desde o surgimento da vida sedentária com as cidades, demandamos melhores tecnologias, para acessar permanentemente a água, em nossa vida produtiva e privada. Isto aprofunda o nexo da água com a energia. Viver e beber água para um caçador-coletor nômade, não é o mesmo que elevar água morro acima ou para um apartamentos num edifício. As tecnologias não param de evoluir, desde a captação, tratamento, armazenamento, distribuição, reciclagem, etc…, fazem décadas que especializações como as engenharias sanitária, hidráulica e elétrica, surgiram para atender, junto com outras disciplinas, estas permanentes necessidades humanas;

07. Sim, saciar a sede e, usar água no nosso asseio, em tudo que consumimos e produzimos, sempre tem um custo. E, infelizmente, este custo de operação, manutenção e gestão, se transforma também num negócio. Saciar a sede para lucrar, como os esforços ameaçadores à saúde humana, como a indústria de refrigerantes que propagandeiam e viciam, agregando na água sabores artificiais, até as privatizações de sistemas de abastecimentos, tanto urbanos, quanto agrícolas, passando pela epidemia de poluição mundial com o consumo de águas em garrafas de plástico, todas atividades lucrativas. Em muitos locais, beber água tratada da torneira, deixou de ser normal, sendo substituído por pagar, para tomar água em garrafa de plástico,… um recipiente poluidor.

Imagem: Agua na caixa – http://www.aguanacaixa.com.br

08. Sim, beber água tem custo, de operação dos complexos sistemas de captação, tratamento, armazenagem e distribuição, de monitoramento de bacias hidrográficas (superficiais e subterrâneas), de manutenção, etc..; Existe ainda um importante direito de gerar acesso, para os que não tem água tratada. E, os excluídos deste direito universal, são muitos. Alguns “ingênuos”, pensam que garantir a universalização do direito à água potável, seria por uma razão religiosa, talvez seja pois, nenhuma religião é anti-humanitária e todas, advogam o bem do próximo. Porém, para os que praticam a economia como a “ciência do horror”, queremos lembrar que os “custos monetários” das doenças por falta de acesso à água potável, sempre serão maiores para os governos e famílias, do que a universalização potável de água para todos. Deixo para os leitores, tentarem quantificar os custos dos sofrimentos pelas doenças, que os economistas fogem de tenrar abordar. Se não fosse assim, isto não seria um dos compromissos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS).

09. Os sistemas de saneamentos urbanos, tendo como sua essência a garantia de acesso à água potável, são reconhecidos como um direito essencial; No entanto, depois de décadas de lucros com os “sucedâneos” artificiais da água (refrigerantes) e, os lucros em engarrafar água para beber, os interesses privados, continuam com pressões para controlar o saneamento. O argumento simplório de que a iniciativa privada faz melhor, é repetido para “fixar” no inconsciente coletivo a falsa narrativa da incapacidade de nos auto governarmos e, esconder a lucratividade do negocio. Gerir sistemas de água, sempre foi um desafio de ações de escala e, as mesmas são os embriões do processo civilizatório, (canais, represas, aquedutos, tubulações,..) exigindo grandes e duradouras ações coordenadas, ou seja, o surgimento dos governos. A estabilidade das dinastias do vale do Nilo, Tigre, Eufrates, Ganges, do complexo de biomas, com no Império Inca, etc…, estão relacionadas à capacidade de construir e gerir obras hidráulicas, daí se chamarem de “civilizações hidráulicas”. Fica fácil esquecer a História, no entanto a complexidade da gestão dos recursos, sua interdependência (energia, clima, sistemas de saneamento, vida das espécies e humana), indica a falha em “privatizar” facetas de um todo, são os indicadores de nossa crise da “civilização” de consumo.

Imagem: Mancha de lixo no Pacífico – https://www.mafiadomergulho.com.br/manchas-de-lixo-nos-oceanos-as-ilhas-de-residuos-do-atlantico-e-pacifico/

10. Os sistemas de abastecimento de água, são de alta visibilidade pela sua mais próxima relação direta com a nossa vida, ao contrário da regularidade da central de energia comum e permanente, a solar. No entanto, a constatação das gestões bem sucedidas de recursos de uso comum, como água e recursos pesqueiros, feitas sem a presença privada ou de governos, ao longo de décadas, como sabemos pelos estudos da premio Nobel de Economia Elinor Ostrom e, pelo que todos conhecem, com as práticas seculares do Tribunal de Águas de Valência;

11. No momento em que admitirmos, não sermos capazes de administrar os recursos de uso comuns, vitais para nossa espécie no presente e no futuro, temos que aceitar nossa involução, as dificuldades de relações sociais com necessária cooperação. Pois agora como nunca e, cada vez mais, temos abundância de tecnologias, que facilitam o monitoramento e gestão quase instantânea dos recursos naturais. Temos que aceitar que não temos confiança na gestão dos recursos de uso comum. Não temos a confiança, que era dada pela certeza de que os Deuses e seus sacerdotes governavam bem ou, que a reunião de usuários interessados, conhecedores de sua realidade, resulta em acordos consensuais e garantidores da continuidade da vida, como ocorre até hoje, em diversas culturas mas, um fato desconhecido pela maioria, desenganada pela mídia à serviço do consumismo.

12. A água que garante nossas vidas, faz parte de um ciclo que ocorre nas áreas continentais, marítimas e atmosfera, que inclui as águas subterrâneas, de superfície, os diversos biomas e diferenciadas formas de uso e ocupação humana dos mesmos, por isto chamamos a nossa era de antropoceno. A realidade deste ciclo, ultrapassa fronteiras administrativas entre países, bem como os fragmentos micros da propriedade privada; seu funcionamento em grandes espaços, é que torna ridículo os esforços de privatizar partes do acesso a este recurso pois, ele não é produzido por poucos empresários, o ciclo da água movimenta-se permanentemente na natureza. Vejamos uma síntese didática:

Imagem gerada com IA

13. O desafio do acesso aos recursos hídricos para todos, tudo indica que é incompatível com a privatização. No caso da empresa privada, pela sua função explícita de perseguir o lucro, mas sempre estará operando dentro da legalidade e, não se pode falar de “corrupção” de práticas empresariais internas quando facilitem a acumulação de capital. No entanto, o desafio do serviço público, é o mesmo dos serviços associativos em saneamento, é comunicar-informar com transparência as atividades, os custos, os resultados; deixar de uma prática formal-cabalística de apresentação de resultados, para um sistema que construa e mantenha a confiança. Isto, só pode ser feito com os operadores e usuários do bem comum; Sempre que esta desafiante prática concreta foirefetuada, teremos uma governança real, dos usuários operadores (técnicos) para e com, os usuários consumidores. A realidade comprova e sabemos, esta peculiaridade da gestão do bem comum, ser impossível para o proprietário privado da “prestação de serviço”; Muitos manuais, clamam por melhor “governança”, ignorando que os “rituais” de monitoramento, registros contábeis, de avaliação, continuam usando o os códigos “criptografados” da empresas privada, sendo filtrados, raramente divulgados. Caro leitor, indaguemos: Quem sabe o custo do litro de água que sai da torneira? Quem tem ideia de quantos litros se perdem em desperdício e, quanto custa isto rateado entre todos? Como controlar o desperdício? Quanto de água das chuvas de nossos telhados podem ser armazenados? Quem sabe qual a depreciação do sistema de bombeamento, tratamento, armazenamento, etc.., ? Quem sabe se a bacia de captação ou o aqüífero, está sendo monitorado? Quem sabe os padrões sanitários da potabilidade da água da torneira? Quem sabe como está o uso da área da bacia? Quantas nascentes tem e quantas devem ser recuperadas? qual seu custo de recuperação? Ninguém sabe ou,… alguns técnicos sabem ou suspeitam. Como construir confiança com esta permanente falta de informação? Vivemos numa conspiração para não confiar, para destruir as bases da efetiva governabilidade democrática do recurso vital. Como aceitar que recursos de uso comum, naturais, demanda sua gestão para o bem de todos, resultem na geração de lucro para uns poucos? Qual a razão para aceitar o que é anti-social?

14 . Admire o por do sol, a nossa estrela que já foi divindade, quer esteja em Lima, vendo espetáculo do seu “mergulho” no Pacífico ou, em Porto Alegre, na orla do Guaíba ou, veja o esplendor do nascimento do dia, na praia em João Pessoa, quando a nossa estrela, aparentemente surge lentamente das águas do Atlântico. Curta, na Chapada dos Guimarães um banho de cachoeira, de chuva numa tempestade no final da estação seca, curta a paisagem e o momento; Abra a torneira e regue as flores, tome sopa e curta seu vinho com a família; sinta o refrescar de um chuveiro depois de um dia de calor ou, as delícias de um banho morno numa noite fria; beba uma limonada feita na hora; Tudo isto, serão momentos de alegria, de usufruir a nossa convivência com o ambiente terrestre e, com a tecnologia que canaliza água ao nosso alcance; Estes momentos, não tem preço, são benefícios dos recursos de uso comum, de todos; Os falsos argumentos de privatizar a energia, sob diferentes formas, a solar, bem como a água, essências da alegria de viver, são desumanos, são típicos dos míopes, anti-éticos, “mercadores do templo”.

Piscina de ondas na China, capacidade 10 mil pessoas em dias quentes. https://www.voltaaomundo.pt/2018/08/07/multidoes-no-verao-em-portugal-veja-estas-piscinas/noticias/380551/

PARA conhecer mais, entre outros, sugiro:

ALTVATER, Elmar. O preço da riqueza (Pilhagem ambiental e a nova (des)ordem mundial). S. Paulo, Ed. UNESP, 1995, 334 p.;

BARRETO, Eduardo Sá. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Ed. Consequência, 2018. 226p.;

MAZUCATTO, Mariana. O Estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. S.Paulo: Portoflio-Penguin, 2014, 314P.;

OSTROM, Elinor. El gobierno de los bienes comunes: la evolución de las instituiciones de acción colectiva. México: Ed. UNAM, 2011, 402p.;

CECHIN, Andrei. A natureza como limite da economia: a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen. S. Paulo: EdUSP, 2011.;

EMBID, Antonio & MARTIN, Liber. El nexo entre el água, la energia y la alimentación en America Latina y Caribe. Santiago de Chile: CEPAL-CEE-Cooperación alemana. 2017,71p;

DOUROJEANNY, Axel & CHEVELERAUD, Ylang. Procesos de colaboración y mecanismos de resolución de conflictos por el água. Santiago de Chile: Fundación Chile-Centro de Atacama (energia y água), 2010, 44p.;

PAIM, Paulo Renato. Planejamento dos usos da água e os Comitês de Bacias desafio do futuro. Revistas Águas do Brasil (REBOB – Rede Brasil de Organismos de Bacias Hidrográficas), ano 12, nº29, mar/2023;

MONTIBELLER, Gilberto. O mito do desenvolvimento sustentável (meio ambiente e custos sociais no moderno sistema produtor de mercadorias). Florianópolis, Ed. UFSC, 2004, 306p.;

LÉNA, Philippe & NASCIMENTO, Elimar Pinheiro (orgs.). Enfrentando os limites do crescimento (sustentabilidade e crescimento e prosperidade). Rio de Janeiro, Ed. Garamond – IRD, 2012, 446 p.;

Ver na wikipedia, o Tribunal das águas de Valência”.

Sugiro ver neste blog, o ensaio NA M UDANÇA CLIMÁTICA O PLANETA CONTINUARÁ MAS, E A ESPÉCIE HUMANA?

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