01. O consumo de drogas é uma praga social? A nossa conclusão, depois de comer um carreteiro de charque, acompanhado de um vinho , só pode ser uma negativa à esta pergunta. Afinal, se o álcool gera potencial dependência do alcoolismo, o prazer da gastronomia poderia ser condenável? As alegrias humanas com o uso do paladar, seria incorreta? A gula seria de fato pecaminosa, como diriam os religiosos magrinhos? Mas, com certeza, sem o vinho, o prazer da refeição seria…menor portanto, discordo da pergunta inicial.

02. Não conseguir distinguir entre o que é necessário e benéfico para si e, ter que viver sob a ameaça de proibições, é na verdade, uma verdadeira praga social. Daí, a constatação lógica, de que podemos ser enganados em sua relação com este assunto.
03. Aqui para simplificar, chamaremos os drogados, os que consomem droga de modo geral. Desde os consumidores eventuais, os adictos “sociais” até os de uso cotidiano. As diferenças, não estão apenas no tipo e modalidade de substância química, que origina sua dependência, mas no domínio dos meios para satisfazer o uso da mesma. Se o dependente é rico, é inimaginável que vá assaltar para conseguir dinheiro e comprar drogas; Pelo contrário, a adquire e consome de forma segura e, se precisar se desintoxicar usará boas, discretas e caras clínicas; No caso de até exagerar no uso e ficar “meio inválido para pensar” poderá até ser substituído ou, pagar para outros pensarem e trabalharem por ele. No entanto, se o dependente é pobre, poderá virar um predador familiar e da comunidade, para arrumar dinheiro para satisfazer seu desequilíbrio bioquímico, sua dependência.
04. O leitor imagina quem são os enganados? Com o predomínio de valores individualistas e consumistas, são muitos. Inicialmente os próprios drogados, que buscam , ao mergulharem drogas buscando soluções para seus problemas, se enganando entre o real (o social) e os efeitos momentâneos das mesmas. Alguns, em especial os que não são ricos, se desesperam com uma vida onde não podem atender suas necessidades essenciais e os apelos do consumismo, sentem-se excluídos, enfraquecidos e, se refugiam das frustrações, via drogas. No entanto, também existe uma grande maioria que não consomem “drogas ilegalizadas”, que acreditam que os drogados são os causadores de problemas sociais e não, que o poderoso e complexo sistema de proibições e seus negócios com a droga, é que mantem a situação calamitosa. Não percebem isto, que as distorções dos sistemas são causadores da busca pelas drogas, pois são enganados ao consumirem as “narrativas simplistas” da mídia apologética dos horrores, os falsos analistas-marketeiros do mercado da insegurança, as seitas que estigmatizam drogado como demônios, etc…
05. Do nosso passado, sabemos que todas culturas tiveram suas drogas, usadas como complementos para viver melhor. A cultura transmitia a forma, o momento e a intensidade de uso de comidas, bebidas ou inalações para descansar, relaxar, ampliar a resistência física, a sociabilidade, cordialidade ou diminuir a dor corporal.

06. Vivemos num mundo, em que o álcool, cotidianamente é um auxiliar nos momentos de relaxamento, de convivência familiar ou entre amigos. Isto é um fato em que o leitor está imerso.
07. O leitor pode imaginar uma festa de batizado, um casamento, um aniversário, uma reunião de amigos, sem o consumo de bebidas alcoólicas? Que religião ou legislação seriam capazes de proibir isto? Pois os norte-americanos tentaram e… fracassaram com efeitos terríveis, como o surgimento da máfia em sua sociedade. Depois de décadas de proibição de consumo de bebidas alcoólicas de todos os tipos (a Lei Seca), os EUA constataram seu fracasso e acabaram com a proibição. Os efeitos são conhecidos, os negócios ilegais prosperaram e se estabeleceram, descobriu-se o óbvio, não é proibindo o uso que se controla a droga. Todos sabemos que proibir o uso de tabaco para menores de 18 anos, foi inútil. Com que idade nossos país começaram a fumar? Com menos de 18, pois no passado, fumar significava uma passagem para a vida adulta. No entanto, em escala mundial, o tabagismo teve uma diminuição e, muito mais pela consciência do seu dano à saúde, do que as simples proibições de “locais de não fumantes”. Ou será pelo surgimento de novas formas de consumir tabaco? Ou novos sucedâneos? Vivemos num mundo, em que cada vez mais drogas são receitadas, para controlar dores, emoções, depressões, gerando inovadoras “enfermidade”, a dependência às mesmas.

08. Temos dependências incorporadas no cotidiano, consumos que em excesso prejudicam. Imagine o leitor, se beber meu copo de vinho do almoço de domingo fosse proibido? fosse um ato criminal? Ou, se meu cafézinho, depois de sestear na rede, tivesse que tomar escondido depois de comprar da térmica de um traficante? ou, meu chimarrão matinal? Passar sem o mate cria sede, minha forma de sofrer abstinência. Sei que sou adicto a estes elementos e, os aqui cito, para exemplificar. Quanto custaria meu vinho se a sua produção fosse em vinhedos clandestinos? Quanto custaria manter uma vinícola secreta? Quanto custaria o transporte clandestino? passar nas alfândegas, depósitos, papéis falsificados de controle fiscal? Esta realidade, que alimentava criatividade e cadeias de corrupção, nos tempos da lei seca, resultavam em falsificações e no encarecimento do produto para o consumidor, pelos custos adicionais de operarem na clandestinidade. Exatamente isto vivemos hoje, temos um sistema internacional-nacional-regional-municipal e vice-versa, uma cadeia permanente, de produção-transporte-consumo de drogas que realiza o lucro, o reinvestimento na manutenção da atividade e… na sua diversificação (branqueamento). O mesmo é complexo, gera empregos e rendas ilegais, onde os postos mais arriscados (produzir e vender nas ruas) são os mais mal pagos e… mais reprimidos e mortais. É um complexo sistema, alimentado pela demanda dos desiludidos e operado, pelos que dele necessitam para viver e, onde poucos, ganham muito, geralmente em segurança. Em termos sociais, éticos, é desnecessário, parasitário, desumanizador, que oneram a todos, portanto anti-social. A óbvia constatação disto, em que a proibição da produção e uso é o maior fator, está comprovada por vários estudos (veja os outros artigos sobre DROGAS, neste blog), e pela extinção da lei seca nos EUA.
09. O consumo de drogas existiu em todas culturas humanas. Nos nossos tempos, ele é um dos maiores indicadores de crise do sistema econômico consumista, exponencialmente excludente; Um exemplo é o alcoolismo que faz mal a saúde, onera onera as famílias e o SUS, gera violências mas é incentivado, diariamente pela mídia. As drogas químicas existem, para poucos ganharem e muitos gastarem arriscando a saúde ou suas vidas no seu consumo. As drogas, da produção ao consumo final, são um fenômeno em escala mundial, que foi acelerado nas últimas décadas, é um fabuloso negócio para a pesquisa (as sintéticas), para a indústria do medo e da segurança, para a mídia desnorteante, para a indístria de terapias, para a indústria farmacêutica, para as seitas “caça demônios”, para o antiquado e disfuncional sistema penal e carcerário, etc…
10.. Sempre que uma sociedade estiver em crise e, crise significa os momentos históricos de incapacidade organizacional de oportunizar vida digna, possibilidades de trabalho e renda, satisfação das necessidades essenciais e culturais para a maioria, resultando em migrações, conflitos e… consumo de drogas em quantidade. Nestes momentos, a sociedade tem sintomas de trágicas patologias, como o uso das drogas, um instrumento de escape para muitos e de lucros para poucos, nisto estamos, o problema das drogas e da insegurança coletiva, são os claros sinais de nossa crise social.
11. Não é a droga em sí, com as suas peculiares diferenças das naturais ou sintéticas, mas a proibição e criminalização do seu uso, as enganosas atividades da repressão e controle da produção e consumo, apresentadas como única solução, que são uma das grandes pragas de nossos dias.
12. A proibição de uso, resulta em falsificações mas principalmente, em lucros fabulosos que alimentam os complexos sistemas de interesses na manutenção deste engano, dominando a consciência social e de muitas instituições.
13. Sabemos pela lógica e por estudos diversos, que as dificuldades coletivas de perceberem quais as necessidades essenciais para o indivíduo e sua comunidade, demandam esforços continuados para manterem o engano. Este fato, confirma a nossa certeza de que é o conhecimento humano ao avançar, que vence as dúvidas, onde a razão irá se impondo, aceitando que consumo regrado de drogas continuará em nossa cultura, excluindo o parasitismo, corrupção, doenças e dores, gerado pelo atual estado de simples proibições de algo, que sem excessos, faz parte do social e, só pode ser auto-regulado na própria cultura, pelas pesquisas, debates e alternativas consensuadas.
14. Não nos enganemos, os custos para manter a proibição das drogas é ascendente. Não nos enganemos as perdas fiscais sem a legalização da fiscalização para vendas de produtos seguros, são grandiosas. Estes dados são demonstráveis e os mesmos, no passado levaram ao fim da Lei Seca nos EUA.

15. Não nos enganemos continuando a gastar recursos, principalmente públicos, nas medidas repressivas e da saúde para tratar dependentes. Estes gastos crescentes, se comprovam em toda parte, demandam cada vez mais recursos, tanto na etapa de enfrentar esta faceta da crise social (os drogados), quanto para arcar com os custos de mudanças e valores. Precisamos de recursos, que devem vir da legalização e dos impostos sobre o consumo de drogas, como já existe e deve ser melhorado com o tabaco e álcool por exemplo, para : A – Ampliar os ridículos recursos destinados à pesquisa médica, para termos alternativas em face à demanda crescente de paliativos e cura; Ampliar recursos para pesquisas dos impactos sócio-econômicos e na saúde, do complexo empresarial das empresas de drogas atualmente ilícitas, sem os quais as políticas públicas continuarão erráticas e/ou, manteremos proteção “imperceptível” as mesmas; B –Ampliar recursos investigativos sobre a rede de coberturas e de branqueamento das atividades ilegais ao longo de toda sua cadeia, envolvendo empresários operadores, funcionários públicos e políticos; C – Real ampliação da rede do SUS, com mais CAPS (Centro de Atenção Psico-Social), cuja cobertura é muito pequena; D – Reformas judiciais e policiais, abandonando o histórico êrro de “guerra às drogas”, que considera a temática como uma atividade bélica em escala crescente, geradora de insegurança coletiva e sem resolubilidade comprovada em nenhuma parte.

16. Não nos enganemos, é necessário mudar para salvar vidas. Não nos enganemos, pensando que a transição será fácil e indolor. Os esforços de ajustes para uma necessária paz e melhoria social, darão trabalho. Afinal, corrigir erros de decisões, geradores de leis e instituições repressivas, demanda mudar de opinião, mais participação de todos que estamos perdendo com a situação, etc…. No entanto, somos uma espécie social e, a evolução de nosso relacionamentos, é o desafio permanente da vida e, a temática de aperfeiçoamento legal do uso de drogas, trata é disto.
Para conhecer mais sobre este fascinante tema, a quem já dedicamos dois ensaios, veja neste blog DROGAS I e DROGAS II.
Obrigado.

