A SOCIEDADE INDECENTE

01. É raro um político sintetizar questões essenciais, como nesta resposta de Antônio Costa, num debate no Parlamento de Portugal em 22/09/16, sobre que sociedade queria: “… – quero uma sociedade que seja decente e, uma sociedade decente, é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades e, que a prosperidade gerada por todos possa ser justamente compartilhada por todos”.

Ao negar as necessidades biológicas somo como humanos sem rosto, sem identidade, sem função nenhuma na sociedade.

02. Qual a razão de continuar permanente esta temática, que ingênuos consideram como sonhos utópicos? Afinal, tomar o ser humano e suas necessidades como o assunto central para todos e, relacionar isto, com a capacidade de trabalhar para termos vidas prolongadas e saudáveis, foi e é, a essência do desejo de todos.

03. Assim, neste estado de crise cotidiana, concordamos com a classificação de nossa realidade social como indecente. Ela é indecente, pois vivemos o cotidiano de negação da atenção das necessidades e, se acentua, a diminuição das oportunidades de exercer as capacidades no trabalho.

04. Desde nossos antepassados tribais, a questão da organização social para suprir as necessidades humanas, alocando as capacidades na resolução disto, é tema permanente. As necessidades biológicas são nossas conhecidas deste o nascimento, sem a satisfação das mesmas, o ser humano, em qualquer idade, se enfraquece, morre. A clara consciência disto é que nos leva, permanentemente, a alocar nossa força de trabalho individual e, em grupo, para garantir a garantia da continuidade de nossas vidas.

05. Recordamos que foi Abraham Maslow (1908-1970), quem abordou as necessidades humanas numa escala hierárquica, partindo das fisiológicas essenciais (nossas biológicas), até o que chamava de auto-realização na sua denominada psicologia humanista. Criou uma escala que, sem a atenção das necessidades fisiológicas (alimentação, respiração, descanso, abrigo), haveria dificuldades para passar para outros níveis, como segurança (afeto, trabalho,..), aceitação social (amizade, amor, afeto), auto-estima e, atingir o cume da sua hierarquia, a auto-realização. Ou, a um estado de felicidade, tão bem colocada como objetivo essencial, até na legislação e indicadores, como no Butão (ver neste blog, o ensaio “AS DESIGUALDADES SE AMPLIAM E MATAM”);

Fonte: Nós e as Desigualdades – Relatório da Oxfam Brasil/Set/2022.

06. Mas, será com Manfred Mac-Neef, Antônio Elizalde e Martin Hopenhaim em 1986, que a temática das necessidades humanas, avançou mais. Aperfeiçoaram a classificação das necessidades, reconhecidas como reais carências mas também, como potencialidades . Estes autores geram mais indicadores, explicitados em categorias com enfoque sistêmico, sempre partindo da subsistência (a fisiológica de Maslow). Exemplificam meios satisfatores, pseudos-satisfatores, de cada categoria de necessidades, etc..; Importância é a defesa da sua taxonomia de necessidades para uma original construção de “Un Desarrollo a escala humana” que, só pode existir justiticável pela satisfação das necessidades humanas. Voltamos ao tema “felicidade” do Butão (ìndice de Felicidade Bruta)? Importante, é que vão além de situar o sistema de necessidades como essenciais para uma teoria de desenvolvimento, ao também explicitarem o trabalho (capacidades) como um grande multi-recurso. O trabalho para eles, não é um simplório fator de produção, ele é a essência criativa do ser humano, preserva a identidade das comunidades, mobiliza energias sociais, utiliza e desenvolve capacidades organizacionais, é a forma para a satisfação das necessidades individuais e coletivas e, por estas razões, depois Viviane Forrestier, vai considerar o desemprego como “um horror econômico”. Recentemente, o catalão , Joaquim Sempere (2009), retoma o tema, fazendo uma lógica e bem ilustrada argumentação sobre a classificação das necessidades, sua relação explicativa com a explosão consumista, de necessidades falsas resultando, na presente crise ecológica que ameaça à todos.

07. Portanto, o que o político português afirmou esta correto, vivemos numa sociedade indecente pois, nem as necessidades básicas são satisfeitas, nem as possibilidades de trabalho, de desenvolver e aplicar capacidades, estão garantidas e, o pior se ampliam cada vez mais, para grandes grupos grupos de excluídos, na maioria dos países do mundo.

08. Os dados dos movimentos migratórios (ver ensaio MIGRANTES, REFUGIADOS E NATIVOS, neste blog), persistem com números alarmantes, demonstrando que as sociedades não atendem nem as necessidades biológicas e nem possibilitam aplicar, desenvolver, capacidades laborais.

09. Ainda está por provar-se, que os efeitos da mecanização, já estudados desde a Rev. Industrial e, agora as inovações tecnológicas com a TI, sejam capazes de repor e/ou multiplicar, os empregos que elimina . Existe a falácia, de que a inovação tecnológica cria trabalhos, sim alguns novos são criados, mas na verdade geram rápida e massiva exclusão, o que resulta em não se conseguir atender necessidades, nem poder ampliar capacidades, tirando a empregabilidade. O óbvio comprovante disto, é o recurso em nossas sociedades indecentes, da generalizada aceitação de programas de renda mínima, assim como os ricos não resistirem a taxação de suas grandes fortunas e de empresas como as de TI, de energia, etc…. No primeiro caso, a renda mínima, é o reconhecimento do fracasso das políticas e programas sociais, de sua incapacidade de capacitar, reciclar, subsidiar mesmo, a manutenção ou geração de trabalho. Sabe-se que a renda mínima, também ajuda a manter a demanda, como também realimenta a arrecadação de impostos indiretos para o Estado. A renda mínima é um novo estigma social de desesperança, para os que são negadas pelo trabalho a atenção de necessidades fisiológicas. Sua existência, é o comprovante seguro da indecência social No segundo caso, “taxar o alto lucro”, é uma taxa-esmola, indica que a crise é tão grande, que se prefere “perder alguns anéis” do que os dedos, para tentar protelar o agravamento social da crise.

Fonte: Nós e as Desigualdades – Relatório da Oxfam Brasil/Set/2022

10. O Século XXI confirma que o desenvolvimento acelerado da Ciência e Tecnologias (C&T), nos permite saber as quantidades e qualidades dos meios para atender as necessidades de subsistência e muitas outras, que cada ser humano necessita no planeta. Sabemos quantos somos, quantos seremos, sabemos nossas características biológicas (sexo, peso, idade), e conforme as atividades do cotidiano, calcular as demandas de nutrientes, de alimentos, sapatos, vestuário, espaço edificável confortável, meios de mobilidade, lazer, etc… Podemos saber, o que no passado os “utópicos” inferiam, temos agora as bases de informações em escala e acessíveis, para a aplicação prática da atenção das necessidades humanas e, das habilidades do trabalho, no desenvolvimento humano em escala planetária. Isto é óbvio, mas parece um segredo bem guardado.

Quem prepara o alimento que você consome?

11.O capital financeiro, a rede ,de bancos centrais, as errôneamente denominadas “bolsas de valores” (especulações de mercadorias “futuras” e pseudo moedas), usufruem de tecnologias que sabem as quantidades da produção e consumo reais, e lucram com este saber e suas projeções. Apoiadas nas tecnologias diversas, como a de satélites e comunicação instantânea, controlam informaççoes e as usam, manipulam não para atender as necessidades humanas mas apenas ao lucro dos acionistas. Esquecemos, que do território tribal, da comunidade de vizinhos, para a nossa região, para a nação, foi uma longa caminhada mas, agora (mais um segredo?), coexistimos com as multinacionais e bancos internacionais, estes poderosos estados privados sem fronteiras nem cidadãos, em que os títulos de eleitores, são suas ações flutuantes.

12. Afinal, o desafio do Clube de Roma (1972), para saber os “limites do planeta”, e a resposta dos Meadows e sua equipe, com o uso dos esforços de computação do MIT indicaram, que o padrão de vida consumista dos EUA era proibitivo para a humanidade, pois colocaria em risco à todos, isto nunca deixou de ser verdade até hoje. Todos e cada avanço científico nas medições e o nivel crescente de mudanças climáticas, confirmam o que foi alertado a 50 anos. Paira a permanente pergunta: – como não podemos agora, adequar as necessidades essenciais (não supérfluas) de todos, orientada pelos limites dos recursos naturais e capacidades de trabalho?

13. Não podemos, pois uns poucos lucram com a situação atual. Apostam pela resolubilidade de soluções tecnológicas pela substituição de materiais e continuidade da fabricação de falsas necessidades, do consumismo. Afinal, não se produz para atender necessidades mas sim, para lucrar apenas.

14. Um segredo essencial, é a falácia sobre as necessidades humanas infinitas ou a afirmação que vivemos numa sociedade de consumo e que não podemos mudar. Nossas necessidades, não são infinitas pois a vida biológica não é eterna, elas não podem ser infinitas pois não podemos comer quilos de sorvete ou chocolate numa mesma refeição, elas não são infinitas pois não podemos dormir com mais de um pijama por noite, etc… Mas, precisam ser criadas, ampliadas o consumo para permitir manter a produção do lucro. As necessidades precisam da propaganda, da criação do falso que o novo é melhor que o velho, do modismo que torna feio o que ainda pode ser usado, do medo de “parecer desatualizado”, de novas cores para vender os mesmos veículos poluentes, novos sabores para vender novos alimentos processados, novos remédios para curarem e resultarem em dependências, etc… Isto não é uma sociedade de consumo, para atender ao consumo vital, é uma sociedade desesperada por legitimar o supérfluo, para manter a produção pois se não se compra a mercadoria, não se realiza o valor. Assim, a aparência é a essência da propaganda, deixando que o o real valor de uso – a essência, para atender necessidades verdadeiras, seja secundário, induzindo a compulsão patológica do consumismo e, da permanente e exponencial agressão ao meio ambiente que nos sustenta.

Fonte: Nós e as Desigualdades- Relatório da Oxfam Brasil/Set/2022

15. Outro segredo essencial, é que nossas vidas tem que ser totalmente preenchidas pela geração de falsas necessidades. Assim, o tempo de ócio por exemplo, ser desviado para as compras principalmente ou, para preparar para comprar, diminuindo o descanso, criando novas necessidades. No ócio, o indivíduo é exposto ao novo e induzido a ter…novas necessidades, daí o errôneo, a sensação falsa de que as necessidades humanas são ilimitadas quando, o ilimitado é o esforço de criar compradores.

16. Lógico que o processo de produzir o novo, com mais produtividade, para competir e .. lucrar, é a busca permanente por produzir mais unidades de mercadorias, com menos. E neste menos, estão a redução dos salários e/ou dos postos de trabalho de forma constante. Isto resulta no que todos sabem, a demanda diminui. O surgimento dos programas de renda mínima, os crediários (comprar com a renda futura), são facetas do mesmo, minimizar a contradição principal de nossa sociedade indecente.

Pergunta: “Em uma escala de 0a 10, em que 0 significa nada importante, o quanto você considera importante para diminuir a diferença entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil”? Fonte: Nós e as Desigualdades- Relatório da Oxfam Brasil/Set/2022

17. Sabemos que vivemos vigiados. Se o uso da internet é mais uma necessidade para todos, somos também usados por ela. Com a internet, nossos desejos são conhecidos, interpretados e usados para forjar as necessidades de consumo supérfluos, em pressão acelerada sobre os recursos ambientais, na aceleração das diferenças e na impossibilidade de bem estar. Esta tecnologia deve evoluir para ter uso humano, decente e não, para servir ao desperdício lucrativo.

18. Pensar, é humano, não é incomodo, leva ao estudo ao diálogo à mudança. Enganosos são os que afirmam ser mais cômodo, se ater as rotinas que justificam nossas ilusões, que protelam para o futuro as perturbações do presente que nos agridem. As narrativas ingênuas de “que sempre foi assim”, que aprisionam o impulso lógico da busca de alternativas, talvez seja uma explicação desta manutenção prolongada de nossas indecentes sociedades. No entanto, a certeza de que já todos concordam que a indecência está insuportável, nos dá a certeza de que vamos mudar para melhor.

PARA ilustrar, dialogar, continuar, algumas sugestões:

SCHUMACHER, E.F. O negócio é ser pequeno (um estudo de economia que leva em conta as pessoas). Rio de Janeiro, Zahar, 1977, 262.;

JARA, Gustavo Benitez. El antihumanismo neoliberal. Lima, Arteidea Editores, 125p.;

RAWORTH, Kate. Economia donut (uma alternativa ao crescimento a qualquer custo).Rio de Janeiro, Zahar, 2019,368p.;

CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada (a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. S.Paulo: Ed. UNESP, 2004, 266p.;

PIKETTY, Thomas. Capital e Ideologia. Rio de Janeiro, Ed. Intrínsica 2020, 1053p.;

CAMPOS, Lauro. A crise completa (a economia política do não). S.Paulo, Ed. Boitempo, 2001, 345p.;

CATTANI, Antônio DAvid & OLIVEIRA, Marcelo Ramos. A sociedade justa e seus inimigos. Porto Alegre, Tomo Editorial, 2012, 1840.;

LATOUCHE, Serge. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. S.Paulo, Martins Fontes, 2009, 170p.;

WOOD, Ellen Melksins. Democracia contra capitalismo.S.Paulo, Ed. Boitempo, 2011, 261p.;

SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro, Ed. Leyla, 2017,240p.;

FORRESTIER, Viviane. O Horror Econômico. S.Paulo, Ed. UNESP, 1997, 154p.;

FONTENELLE, Isleide Arruda. Cultura do consumo. Rio de Janeiro, FGV Editora, 217,220 p.;

OXFAM. Nós e as desigualdades. S.Paulo, OWFAM Brasil, 2022, 56p.;

DIAS, Genebaldo Freire. Pegada ecológica e sustentabilidade humana (as dimensões humanas das alterações ecológicas globais). S.Paulo, Ed. Gaia, 2002, 265p.;

SEMPERE, Joaquim. Mejor con menos. (necesidades, explosión consumistda y crisis ecológica). Barcelona, Ed.Crítica, 2009, 269p.;

OSTROM, Elinor. El gobierno de los bienes comunes (la evolución de las instituiciones de acción colectiva). México, UNAM (Univ. Nacional Autónoma de Mexico), 2011;

MAX-NEEF, Manfred et ali. Desarrollo a escala humana (una opcion para el futuro). Santiago de Chile, Ed. CEPAUR (Centro de Alternativas para el Desarrollo), 1986, 95p.;

Papa Francisco. Fratelli Tutti (carta encíclica). Asis, 03/10/2020,

GUDYNAS, Eduardo & ACOSTA, Alberto. La renovación de la crítica al desarrollo y el buen vivir como alternativa. Maracaibo, Revista Internacional de Filosofia Iberoamericana y Teoria Social – Utopia y Práxis Latinomaericana, ano 16, nº53, 2011, p.71-83.;

SAES, Beatriz Macchione & MIYAMOTO, Bruno Cézar Brito. Limites físicos do crescimento econômico e progresso tecnológico: o debate The limits to Growth versus Sussex. Curitiba, Ed. UFPR, Revista Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente, v. 26, p.51-68, 2012;

MONTEIRO, Sílvio Tavares. O essencial é o desenvolvimento humano. Cuiabá, Edição COOTRADE (série ensaios e estudos sobre desenvolvimento humano), 2003, 102p.;,

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