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Conteúdo: 1. Migrantes e refugiado? 2. Migrações temporárias; 3. Migrações “rural-urbana” e migrações “rurais-rural”; 4. Refugiados e as Migrações forçadas; 5. Recordemos a Europa que “expulsava” excedentes: imigrantes; 6. Aumentam os movimentos de populações e os deslocamentos forçados; 7. Constatações…óbvias; 8. Para complementar, sem esgotar a temática.
- MIGRANTES E OS REFUGIADOS:
01. Como comentamos no post sobre a MUDANÇAS DAS POPULAÇÕES neste blog, seus estudos se referem as suas quantidades e características, num determinado espaço-tempo. Elas podem aumentar ou diminuir por diversos fatores, entre os quais as migrações, que afetam as quantidades e qualidades das populações, alterando as mesmas. Para não haver dúvidas, o migrante é o que se muda em busca de melhorias por vontade própria, enquanto que o refugiado, é o nome atual para o que é forçado, deslocado por perseguições ou foge de conflitos. A seguir apresentamos um mapa da triste atualidade (dez/2021) sobre os deslocamentos forçados:

02. Naturalmente, o indivíduo é a menor unidade da mobilidade espacial humana nas migrações. No entanto, os estudos do tema se relacionam com quantidades significativas de pessoas, as famílias, grupos de vizinhanças, resultantes dos fatores que induzem o movimento ou, de um ato de força identificável que os expulsa de seus locais de moradia e trabalho.
03. As migrações ocorrem, por rotas, caminhos terrestres, fluviais, marítimos, aéreos, com diversas formas de deslocamentos, caminhando, cavalgando, em carroças, automotores, navios, trens, aeronaves, por meios próprios, com transportistas legais e ilegais. Ao longo dos trajetos, desde suas origem, até os locais de destino, estes movimentos vão usando, mantendo e ampliando redes de sustentação, viabilizadoras da mudança espacial da população. As redes, podem ser formais e/ou informais, segundo a geografia física e política das fronteiras, caracterizando o trajeto e, conforme as características e papéis, dos participantes no processo.
04. Diversas podem ser as qualificações de migrações. As mesmas se diferenciarão pelas distâncias que envolverão, pelas fronteiras a serem cruzadas e, pelo tempo de duração da jornada, tanto do movimento do trajeto inicial ao final, quanto pelo ir, estar e retornar (migrações temporárias).
2. MIGRAÇÕES TEMPORÁRIAS:
05. As migrações temporárias, sazonais, de curta duração (semanas ou meses), que transladam periodicamente trabalhadores isolados ou em famílias, para atividades distantes de suas moradias, ocorrem em vários locais do planeta. Como as colheitas de frutas na California, com “trabajadores temporales del México”; colheitas de maçã em Vacaria (RS) com trabalhadores de outros estados; Colheita de cana no Mato Grosso e de laranja em São Paulo, com mão-de-obra nordestina; Colheitas de frutas na España com marroquinos, etc… A sua existência, gera vínculos econômicos de ligação e dependência, entre as regiões que tenham curtos períodos (picos) de grande demanda de mão-de-obra e, os locais de origem da mesma, onde existe escassez permanente de trabalho. A produção só pode se realizar, se existir uma mão-de-obra barata e disponível, a ser movimentada no momento certo. Depois de sua utilização.. os trabalhadores retornam, são devolvidos para seu país ou região de origem. As migrações temporárias, articulam espaços distantes, gerando relações complementares mas desiguais, de dependência.

3. A MIGRAÇÃO ‘RURAL-URBANA” E, A “RURAL-RURAL:
06. No entanto, as migrações com objetivo de mudança definitiva de local de trabalho, de residência, são as mais relevantes. As mesmas podem ser desde as rurais-urbanas, ou seja o processo de translado da população das áreas rurais para buscarem alternativas nas cidades, resultando em diminuição demográfica no campo e crescimento das cidades.
07. As migrações rurais-urbanas, se acentuaram com as mudanças tecnológicas dos últimos dois séculos. A revolução industrial, foi também uma revolução nas práticas agropecuárias. Tanto o processo de concentração de propriedades, quanto a mecanização na agrícola, nos transportes, novas formas de processamento, a substituição do artesanato pela manufatura, enfim, o apogeu da economia liberal, resultaram em forte diminuição da produção familiar, gerando empobrecimento e desempregos, com deslocamentos em busca de trabalho, para as periferias urbanas. A urbanização em todo o mundo, foi alimentada pelo exodus rural, o mesmo ampliou a oferta de mão-de-obra barata nas cidades, permitindo a expansão da industrialização.

08. Este processo de mudanças, das atividades primárias agora para a indústria, ocorreu em todas as latitudes, também construindo a alternativa de movimento migratório rural-rural. Muitos produtores familiares, ao terem dificuldades de manterem suas atividades e acessarem a mais terras para a reprodução ampliada de suas famílias, de seu modo de vida, em busca de solução para trabalharem no que sabiam fazer, optaram por migrarem, reconstruir suas vidas em outros lugares rurais. Isto vai ser um poderoso motivo, que alimentará no Século XIX, a conhecida e volumosa migração européia para outros continentes. Este processo global, inicia com as acelerações da Revolução Industrial, resultando numa grande e prolongada “diáspora” de europeus, provocando alterações, nos seus países de origem e, em outros continentes.
4. REFUGIADOS E DESLOCAMENTOS MIGRATÓRIOS FORÇADOS:
09. Catástrofes climáticas e, muito mais as guerras, sempre geraram e ainda geram, movimentos forçados das populações, que sentem suas vidas ameaçadas e… se deslocam.
10. Conflitos por diferenças diversas, sob aparência política, religiosa ou étnica, que geralmente escondem interesses econômicos, são as geradores de migrações forçadas de populações. Exemplos não faltam, citando alguns de improviso: A conquista da Independência da Índia, com a decisão Britânica de fazer uma separação das populações sob ótica de religiões, origina o Paquistão, resultou em guerras, migrações e extermínio de centenas de milhares de pessoas; A desaparição da Federação Iuguslava, desencadeou nova fragmentação balcânica, com guerras, extermínios e deslocamento de populações, num retalhamento de fronteiras que, a intervenção da União Europeia e da OTAN, mais agravaram do que resolveram, como comprovam as atuais muralhas fronteiriças que surgiram; A criação do Estado de Israel, ignorando os Palestinos, gerou desde 1948, invasões e migrações com acampamentos de refugiados que parecem não ter solução; Antes disto, a ascensão dos nazista na Alemanha (1933), implantou uma legislação discriminatória e espoliativa contra os judeus, resultando numa emigração “semi-forçada” dos mesmos para outros países, ainda antes da II Guerra Mundial (1939-45) quando então, implementaram os extermínios dos que haviam ficado (genoicídio).
11. No entanto, uma das mais bem documentadas migração forçada, foi a produzida pela expansão européia no continente americano desde a sua “descoberta” por Colombo em 1492. Nas décadas iniciais, o período da “Conquista”, o uso forçado das populações nativas, pelos portugueses e espanhóis, resultou em aniquilações das mesmas acompanhada por movimentos migratórios de fuga, de remanescentes.
12. Da América, o que os conquistadores ibéricos queriam, era suas riquezas minerais (ouro e prata) e vegetais (drogas do sertão, pau-brasil) mas, ao implantarem as novas atividades lucrativas (agronegócio), iniciando pelo açúcar, depois o algodão, café, etc… precisavam de mão-de-obra permanente e em quantidades. Onde encontraram em funcionamento organizações sociais, como os Incas e Aztecas, eliminaram seus dirigentes e os substituíram, implantando uma rigorosa semi-escravidão sobre as populações (México, América Central, Região Andina), não havendo “necessidade”, de escravos africanos para manter, ampliar e/ou diversificar, as atividades produtivas. A História da América, desde a conquista, é uma história de movimentos populacionais.
13. As plantações de cana e o seu processamento, implantadas com a conquista extorsiva das terras dos nativos e aproveitando locais de mais fácil embarque marítimo, precisava de grande quantidade de mão-de-obra. Isto resultou numa da mais duradoras migrações forçadas que temos dados, o tráfico de escravos africanos. Assim, o Caribe e Nordeste do Brasil, são as nossas primeiras regiões de agronegócio exploradas pela Europa. No período entre 1540 e 1850, se estima que 10 milhões de africanos foram escravizados e trazidos para a América do Sul, Caribe e sul dos atuais EUA.
14. O mercado transatlântico de escravos foi, durante séculos um grande e rentável negócio. O mesmo fez fortunas em especial para a Europa e, está na gênesis da formação de muitas nações, como o Brasil, pois nossas oligarquias que promoveram as Independências, eram em sua grande parte relacionadas com a migração e exploração de escravos.
15. Atualmente, conflitos e guerras, continuam mantendo esta trágica mobilidade, conforme os dados do ACNUR (Alto Comisionado das Nações Unidas para os Refugiados) confirmam, com o aumento e a intensidade na África, América Central e Oriente Médio. Por exemplo, as estatísticas do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) indicam que mais de 10 anos de guerra na Síria, já resultaram em 6,6 milhões de refugiados no mundo, a maior parte nos seus países vizinhos até 2022, tendo nos últimos meses de 2023 se acelerado devido aos novos conflitos.

16. Atualmente, o grande fluxo de migrantes da África e Oriente próximo para a Europa e da América Central e do Caribe para os EUA, motivados pela pobreza permeada de conflitos, se agravou com as guerras. As populações do Oriente próximo, que viram seus países envolvidos nas destrutivas guerras para controle das fontes de recursos energéticos, migram buscando trabalho e paz. Esta situação de massas de refugiados, foi pouco divulgada, se tornou aguda e “midiática”, agora com a guerra na Ucrânia, onde em poucas semanas, milhões de ucranianos se deslocaram, como podemos ver na informação seguinte, da BBC-News Brasil, com dados do ACNUR até 05/04/22 sobre ucranianos refugiados em alguns países:
| PAÍS | Nº DE REFUGIADOS |
| POLONIA | 2.490.447 |
| ROMENIA | 654.825 |
| MOLDÁVIA | 399.039 |
| HUNGRIA | 398.932 |
| RUSSIA | 350.632 |
| ESLOVÁQUIA | 302.417 |
| BELARUS | 17.317 |
17. Os refugiados da Guerra da Ucrânia, destaparam os aspectos humanitários e, também os racismos, perceptíveis pela forma como são melhor acolhidos, em comparação com os africanos ou de outros continentes. A questão dos refugiados e/ou dos migrantes, temas que no passado a Europa resolveu, exportando seu “excedente” demográfico para colonizar outros continentes, agora tem um fluxo inverso, se transformou num tema candente, emotivo para os nativos europeus. A guerra da Ucrânia, continuam escondendo os horrores bélicos em curso, como podemos ilustrar com o mapa da reportagem da Folha de São Paulo de 16/02/22 “Além da Ucrânia, o mundo tem 28 conflitos ativos e teme novas guerras”:

18. O último relatório do ACNUR (Agência da ONU para os Refugiados), de 2024, afirmava: ” No final de 2023, 117 milhões de pessoas permaneciam deslocadas pela força e haviam sido forçadas a fugir como resultado de perseguição, conflito, violência, violações dos direitos humanos,…um aumento de 8%, ou de 8,8 milhões de pessoas, em comparação com a cifra de final de 2022…. a população mundial total deslocada pela força, era quase o dobro da cifra de uma década.” A continuidade da guerra na Ucrânia, o inesperado genocídio em Gaza (Estado da Palestina), a retomada de intensidade na Síria, a continuidade no Sudão, Myanmar, Afeganistão agora em conflito com Paquistão, Republica Democrática do Congo, Somália,.. retratam o principias conflitos armados que geram deslocamentos internos e entre países (refugiados). A isto temos os agravantes também dos problemas climáticos.

19. A situação de emergência que os conflitos provocam nas populações, resultam que a atenção a estes deslocamentos massivos, façam surgir novos tipos de “aldeamentos”, os campos de refugiados.

20.A quantidade de refugiados que conseguem asilo, é menor do que a da população deslocada. O ACNUR, para 2023, informava sobre os números de asilados, nos principais países: A República Islâmica do Irã tinha acolhido a 3,8 milhões, principalmente de afegãos que, recentemente devem ter se ampliado com o recrudescimento dos conflitos na Síria; Sendo seguido pela Turquia, com 3,3 milhões, em sua maioria sírios; Na Colômbia havia 2,6 milhões, em sua maior parte de Venezuelanos; Na Alemanha ,26 milhões a maior parte de Ucranianos e também de outras nacionalidades como Síria, Afeganistão e Iraque; No Paquistão, 2 milhões de Afegãos. O longo conflito no Sudão, provoca deslocamentos para seu entorno, resultando na soma de 1,8 milões de solicitações mundiais de asilo. Quase todos os deslocados, foram acolhidos nos países vizinhos: república Centroafricana, Chad, Egito, Etiópia e Sudão do Sul.

5. RECORDEMOS A EUROPA QUE “EXPULSAVA” SUA MÃO DE OBRA “EXCEDENTE” – a imigração
21.Os navegantes europeus, “descobrem” para sí, o nosso Continente. Isto explica o esforço de conhecer e de dominar, que ficou conhecido como a conquista, inicialmente por seus “descobridores”, espanhóis e portuguêses e logo por seus concorrentes holandeses, inglêses e franceses. A temática de mobilização humana, do início da Conquista até as Independências de nossos países, além da migração forçada de africanos, para gerirem os novos empreendimentos dos dominadores, demandou que muitos migrassem, para a administração real das colônias, dos negócios aqui implantados, bem como, para “tentarem a vida”. Estimam-se que uns 700.000 portugueses emigraram para o Brasil, talvez uns 750 mil espanhóis, principalmente para o México, Peru e Colômbia e, entre 400 mil a 1 milhão de inglêses e franceses para a América do Norte (atuais EUA e Canadá), antes de nossas independências.
22. O impacto na Europa e no Mundo, da Revolução Francesa e período napoleônico, concomitante com a Revolução Industrial, bem documentado por Eric J. Hobsbawm, acelerou transformações mundiais, transformando a Europa num continente de grandes emigrações. Existe concordância de que o auge da saída de população da Europa, ocorre entre 1815 até aproximadamente 1930. Todos países do velho Continente alimentaram esta emigração, particularmente Alemanha, as ilhas Britânicas, Itália, Espanha e Polônia. A Europa, foi um continente de expulsão de pessoas, em especial para as Américas. Se estimam que entre 50-60 milhões emigraram. Os motivos eram diversos, a fome como na Irlanda, a falta de trabalho nos campos e cidades, a miséria, as perseguições, as guerras, etc…
23. Só os EUA, se estima que tenha recebido, entre o final das guerras napoleônicas (1815) até 1920, aproximadamente 32 milhões de europeus, em sua maioria alemães, inglêses, irlandeses, italianos, escoceses, escandinavos, polacos, etc… Para o Canadá podem ter ocorrido, no mesmo período uma transferência de uns 10 milhões de pessoas, embora muitos tenham posteriormente se mudado para os EUA. Para a Austrália e Nova Zelândia, provavelmente se deslocaram uns 4 milhões, em sua grande maioria Ingleses, irlandeses e galeses.
24.As migrações européias para a América do Sul, foram maiores fora da área andina (Equador, colombia, Peru e Bolívia). Países como a Argentina e Uruguai, receberam correntes de espanhóis, italianos.
25.Poucos europeus, como ocorre com outras migrações, retornaram aos seus países de origem, talvez uns 10%. A maior parte se fixou no destino e, com isto, mudaram de vida, mudando o seu entorno e, também a Europa. Agora, a Europa que ia assimilando migrantes das Américas nas últimas décadas, está tensionada, com a entrada de massas de deslocados por guerras e problemas climáticos, da África e Oriente Médio;
26. Lembrando o genial Darcy Ribeiro, o mesmo constatava que isto no mundo, na grande diferenciação cultural que vivemos, que denominava como: Os povos TRANSPLANTADOS (EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai), onde os traços culturais de suas origens, predominam, com poucas modificações; Os POVOS TESTEMUNHAS (México, Guatemala, Peru, Equador, Bolívia) onde sobreviveram características das culturas anteriores à conquista, deveríamos acrescentar nesta categoria outros como a China, Índia, Irã, Turquia,..; Os POVOS EMERGENTES como as novas nações africanas e, os povos NOVOS, como do Brasil, o rico resultado de miscigenações e se transformando.
6. AUMENTAM OS MOVIMENTOS DE POPULAÇÕES:
27. O último informe da OIM-ONU (Organização Internacional para las Migraciones), estimava em 272 milhões de migrantes em 2019 no mundo. Destes, 52% eram homens e 74%, com idade entre 24 e 64 anos. Nos EUA e Europa, segundo a OIM se concentravam 141 milhões naquele ano, sendo 51 milhões nos EUA.
28. Os países com a maior concentração de migrantes residentes no exterior, em 2019, eram a Índia (17,5 milhões) o México (11,8 milhões) e a China (10,7 milhões).
29. A OIM assinala a importância das remessas internacionais de migrantes, para seus países de origem. Em 2018, o volume chegou a 689 bilhões de dólares americanos, em dados registrados pelos Bancos nas transações internacionais, não se sabe, quanto ocorre por meios informais. A quantidade de recursos enviados pelos que migram para suas famílias, ultrapassa a ajuda internacional para os países subdesenvolvidos. Finalmente, o RELATÓRIO MUNDIAL SOBRE MIGRAÇÃO 2024 da Agência da ONU para migrações, alerta para uma faceta importante deste movimento de massas humanas, ao constatar que as migrações internacionais são impulsoras de desenvolvimento humano e crescimento econômico pois, entre 2000-2022 ocorreu um aumento de 650% nas remessas internacionais, atingindo a 831 bilhões de dólares. Destes 647 bilhões foram enviados por migrantes a seus países de baixa e média renda; estas remessas são importantes para seus PIBs e, superaram os investimentos estrangeiros diretos nestes países.
30. O percentual da população mundial que migra, continua em expansão, desde o início dos registros da OIM-ONU iniciou, como podemos ver no gráfico à seguir:

31. Antes da guerra na Ucrânia, e agora, o genocídio palestino e o agravamento na Síria, os deslocamentos forçados de populações, por conflitos ou catástrofes, segundo o ACNUR (Alto Comisionado das Nações Unidas para os Refugiados), atingiu a impressionante cifra de 82 milhões em 2020. Destes, 48 milhões de deslocamentos internos (no próprio país), 26,4 milhões de refugiados fora de suas fronteiras nacionais, dos quais 4,1 milhão com solicitação de asilo. Na população mundial de refugiados, 52%, estavam com menos de 18 anos de idade. A Turquia, já acolheu 3,7 milhões, principalmente sírios, recebendo ajuda da UE (União Européia), para conter a corrente de migrantes e refugiados para a Europa, desde 2016.
32. Os campos de refugiados no mundo não diminuem. Concentram populações que, de situações provisórias, alguns parecem se transformar em permanentes, chegando a serem novas formas de cidades, com milhares de habitantes…
7. CONSTATAÇÕES …ÓBVIAS:
33. A regra geral, é que alguns vão, menos são os que retornam e outros, ficam. Os que ficam, reencontram equilíbrios, com saudades dos que vão e/ou algumas frustrações, por não terem ido. Os que ficam, se mantem lutando, são os sedentários básicos para mantem os traços culturais, as tradições da terra, da comunidade, da essência das regiões. Os que ficam e, são a grande maioria, gostam de onde estão, ali nasceram e …ali querem ficar, muitos que migram retornam, reforçando seus laços com o local de origem, com a sua cultura.
34. Para os territórios que “perdem” populações, geralmente perdem os mais jovens, perdem os esforços familiares e sociais que os formaram. As comunidades que perdem migrantes, ajustam-se a perda de trabalho e renda, que ocasionou o desejo de partir e podem se manter “estagnadas” ou, podem ir definhando até mesmo desaparecerem. Em outros casos mantem laços, inovam, diversificam e prosseguem. Muitas recebem os recursos das remessas enviadas, mantendo atividades adaptando-se, construindo novas alternativas que permitam que alguns acabem retornando.
35. Para os que vão, arriscam na jornada e na chegada, enfrentando as dificuldades do processo de adaptação. Os que vão, carregam em si recordações que podem se prolongar mais tempo, se estiverem inseridos num ambiente social com habitantes de sua mesma origem (bairro, associação, colônia de migrantes) e, que se diluem mais quando isolados tem que se adaptarem no novo entorno cultural.
36. Se a migração forçada dos escravos, significava uma irreversível ruptura com a sua origem e impossibilidade de retorno, as migrações do Século XIX e XX, foram diferentes. As pesquisas em correspondências epistolares, constatam os laços entre as regiões de origem e de chegada dos migrantes. O nosso século com a internet, as vídeo-conferências, a comunicação é instantânea, criando uma qualidade de relacionamento, inimaginável no passado, agora a distância parece não existir e os laços familiares e culturais poderão continuar.
37. Os países e/ou regiões que produzem, utilizando mão-de-obra de migrantes ilegais ou temporários, ganham, pois produzem com menor custo. Os ilegais e mesmo, os temporários, ao contrário dos trabalhadores nacionais, aceitam salários menores, condições de trabalho piores, quando diminui o lucro dos empregadores, são mais facilmente “descartados” que os empregados nativos. Geralmente não tem acesso aos sistemas de previdência, escolares, de saúde, sem direitos políticos ou, com os mesmos limitados, etc.., . Os países que recebem migrantes, sempre ganham e, sem o querer, enriquecem mais suas culturas. Já fazem décadas, que os EUA e a Europa, em diversas atividades, a rentabilidade real das mesmas, só é possível com devido a existência desta força de trabalho informal.
38. Os migrantes não rompem com seus laços de origem, os laços de família se mantem, como já vimos na solidariedade do fluxo monetário das remessas. Embora vivendo em condições difíceis, maiormente com salários menores que os nacionais, os migrantes poupam e enviam recursos, para suas famílias nos países de origem.
39. O movimento de remessas monetárias, não apenas “compensa” o desequilíbrio de rendas, como retroalimenta o fluxo migratório. A sua existência por canais financeiros, agilizada com a internet é realmente lucrativo,… até para o sistema bancário. Talvez por isto El Salvador, um país que depende muito de remessas de migrantes, seja favorável ao bitcoin.
40. A globalização fomentada fazem décadas pelos neo-liberais, marcou o triunfo do “livre mercado”, das multinacionais e poderio do capital financeiro. Vivemos numa época em que o lucro exige o livre trânsito de mercadorias e moedas. A liberdade de movimentos para apropriação de matérias primas, processamento, logística e vendas, deve ser global, sem entraves fronteiriços ou diminuindo os mesmos (veja a União Europeia eliminando alfândegas) mas, o trabalho, este deve ser controlado. Nem todos podem ter liberdades ou facilidades para irem em busca de melhores salários, pois o capital é cada vez mais seletivo, ele contrata só o que necessita, de forma legal ou ilegal, facilitando a migração dos que julga melhores, como faz com a “fuga de cérebros” na área científica. Uma unificação do espaço mundial, para a livre mobilidade de todos, sem fronteiras com barreiras migratória, tenderia a equalizar o preço da mão-de-obra, afetando o lucro do capital. Afinal, o quadro atual de salários diferenciados para as mesmas atividades em diferentes nações, é importante para as maiores margens de lucro; Sabemos, que ter grandes quantidades de pessoas demandando trabalho, força a concorrência entre os empregados e desempregados (migrantes), permitindo que os níveis de salários continuem baixos, gerando mais lucro para as empresas.
41. As migrações se originam das intensificações e mudanças na localização espacial das atividades econômicas. Estamos vivendo uma aceleração desordenada das mesmas. Neste processo, ao longo das rotas de migrações, suas redes iniciais, de suporte e finais, se diversificam com atividades rentáveis, legais e ilegais. Organismos internacionais, ONGs, igrejas, alfândegas, cercas, muralhas, câmeras de vigilância, drones, polícias, assistentes sociais, pessoal de saúde, de educação, treinamentos, campos de refugiados provisórios que… ficam permanentes, agências bancárias, etc… E, por trás de tudo isto, os contratos ilegais, informais, pessoas transportadas em containers, rotas a pé pelas montanhas, selvas, travessias de rios e mares em embarcações precárias, naufrágios, roubos, violações, prisões e mortes.

42. As migrações, por se relacionarem a quantidade e qualidade de trabalho humano, gera complementações, concorrências, cooperações, afeta a valores de mão-de-obra, margens de lucro e, sempre será tema de tensões, do âmbito da política entre as atividades econômicas que se beneficiam das mesmas e, as que se sentem prejudicadas e nisto, entre as tensões dos ajustes entre os locais e os migrantes.
43. A questão atual dos migrantes, se parece com a migração de escravos africanos? Sim, em ambos casos são mão-de-obra que se movem para atender as demandas do capital. No passado, capturados e agrilhoados e agora, auto-movidos pela esperança de trabalho, de venderem seu tempo para as necessidade do capital, que precisa de permanente oferta de trabalho excedente, para pagar menos e manter seu lucro. Antes eram levados à força, agora se movem pelos seus próprios meios, a pé, pagando transporte clandestino. No passado, o negócio era compra e venda direta de determinada de mão-de-obra nos… mercados de escravos. Agora, são fluxos humanos de aparência espontâneos, que alimentam os “mercados de trabalhos”. Mercados submetidos a proibições, cotas e exigências nacionais que se materializam nas fronteiras filtrantes, amuralhadas ou de aeroportos. No fundo, as legislações e burocracias migratórias, são uma tentativa de regulação dos mercados de trabalhos nacionais, formais e informais; Além de aparatos cada vez mais custosos, elas alimentam o rentável comércio ilegal de transporte e alocação de migrantes, os trabalhadores baratos e necessários.
44. Na política do “Norte”, União Européia e EUA, a questão migratória, é um tema permanente. Ele retrata a problemática do conflito pela falta de trabalho na origem do migrante e sua relação com oportunidade de salários diferenciais no destino procurado. Legislações que regulamentem, discriminam mais ou menos, as claras vantagens de ter mão-de-obra barata de migrantes ilegais, as terceirizações, as substituições de mão-de-obra por tecnologias, etc.., são pautas permanentes da economia política atual.
45. Não podemos esquecer, que os migrantes levam consigo seus gostos, sabores, crenças, cores, conhecimentos e habilidades, a sua cultura e, seu contato com o “nativo”, a necessária relação de convivência ou, o “viver com”, gera a curiosidade, as tensões, o medo ao estranho, o acolhimento, a complementação, a exploração a cooperação, processos que transformam os protagonistas e criam um novo ambiente social.
46.Nossa espécie deslocou-se povoando os continentes, em sua busca natural de melhores condições de vida. Na verdade, antes de sermos “H. sapiens” e sedentários, ainda temos muito de “homos migrantes”, caçadores-coletores As nossas aspirações sociais e culturais, são o resultado de mesclas entre os diferentes povos que povoam a terra. Isto é que nos fascina no estudo das sociedades.
47. De fato, o que mais determina as decisões de “ficar ou partir” (exceptuando as migrações forçadas), é a busca da satisfação das necessidades humanas. As raízes na terra de nascimento, sempre se aprofundam, quando o trabalho, naquele local, garante isto para o indivíduo e sua família. Isto reforça a certeza de ficar, as ligações sociais, as tradições, a cultura regional,… nacional. E também, é o alcance da satisfação de necessidades pelo migrante em outros locais, que resultará em sua integração, no novo ambiente, criando assim, suas novas raízes.
48. Aqui deixamos, com Louis Armstrong, uma bela música. Armstrong é o resultado de migrações na América, menino pobre, criado por judeus em Nova Iorque, cidade que foi terra de índios eliminados ou expulsos, e construída por migrantes, clique para ouvir.
7.PARA COMPLEMENTAR E, SEM ESGOTAR A TEMÁTICA: HOBSBAWM, Eric J.. A Era das Revoluções (1789-1848). Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1977, 343p.; RIBEIRO, Darcy. As américas e as civilizações. Petrópolis: Ed. vozes, 1983; RIPPEL, Ricardo & SILVA HENRIQUE, Jonas. Reflexões teóricas sobre a migração no início do Séc. XXI. Belo Horizonte, ABEP, 2015, 232 p.; BAENINGER, Rosana & CANALES, Alejandro (Coords.) Migrações Fronteiriças. Campinas, Nepo-UNICAMP, 2018, 681p.; ACNUR. Tendencias globales de los desplazamientos forzados 2020. Copenhagen, Al Comisionado de las Naciones Unidas para los Refugiados, 2021, 72p.; DURAND, Jorge. El programa braceros (1942-1964): un balance crítico. Zacatecas, México, Migración y Desarrollo nº9, 2007, pp. 27-43.; OIM-ONU Migración. Informe sobre las migraciones en el mundo 2020. Genebra, Organización Internacional para las Migraciones (OIM), 2019, 528p.; unchcr. Mid-year Trend 2021. UNCHCR, Copenhagen, 2021, 24p.; ACNUR, Tendencias Globales Desplazamientos Forzados en 2023. ONU- UNHCR, 2024, 36p.;

