IGUAIS NA ESSÊNCIA, DIFERENTES NAS APARÊNCIAS E NAS OPORTUNIDADES

01. Não somos iguais, saídos da mesma forma, como de uma fábrica de robots. No entanto, as nossas diferenças físicas que temos, demandam considerações. De fato, são elas, as diferentes aparências que nos permitem identificar e classificar; elas são necessárias para o fluir das relações pessoais do cotidiano e, do convívio social.

02. Todo ser vivo, para ser classificado como pertencente a uma espécie (ver neste blog o ensaio-post HOMOS sapiens?) deve compartilhar características. Assim temos traços morfológicas comuns, bem identificados. Existem comprovadas características bioquímicas, moleculares (genômicas) que nos dão características corporais únicas, que nos distinguem, dos mais próximos, como os primatas. Isto resulta que ao nos auto classificarmos como humanos, nos diferenciamos dos demais seres vivos.

03. No entanto, a mesma espécie humana, além de suas diferenças de sexo e idade, possui aparências externas diferenciadas, mais ou menos perceptíveis entre grandes grupos, o que cria adjetivações e… qualificações. Recordam as velhas classificações raciais? As denominações dos seres humanos como ameríndios, africanos, mongólicos, índios, asiáicos, bérberes, aborígenes australianos, aborígenes da oceania e…os caucasóides, foram criadas criadas pelos brancos europeus. As mesmas, foram resultados de estudos descritivos, com registros em desenhos, fotografias, com os dados antropométricos (medidas do corpo humano e suas partes), como a estatura, formato do nariz, medição do crâneo, testa, tipo de cabelo cor da pele e dos olhos, etc.., que resultaram nas comparações e tipologias que das “raças” humanas., em grandes publicações “cientíticas”. A antropometria racial, um produto europocentrista descritivo, e as “taxonomias” que surgiram e se divulgaram como verdades pelo mundo, também foram utilizadas como bases para errôneas justificativas racistas, de controle social. O pensamento europocêntrico, induzia que a diferença na aparência dos “não-brancos” dava razões para controle e dominação econômica das “outras raças”. Se elas eram “inferiores”, em desacordo com o padrão europeu, justificava serem controladas, tuteladas. A dominação do branco, misturou as diferenças corporais com a cultural justificando sua “superioridade e direito de dominar.

04. Os delírios, ditos científicos, são conhecidos com os absurdos da frenologia. Os esforços de medição e descrição antroprométrica na Europa, chegam na área judicial, nos trabalhos e teses de Cesare Lombroso autor do “O Homem delinqüente”? Partindo do estudo descritivo do formato do crâneo e das feições, sugere tipologias que “permitiam” identificar traços da personalidade e encontrar tendências criminais em seus portadores. Assim, quem tivesse algumas características, “teria uma propensão para certos tipos de crimes”, etc..; Uma descoberta “científica” à serviço do controle social, que foi considerada verdadeira mas, que não tinha consistência estatística nem conseguiu ser comprovada nunca. Nunca se provou que, ter “cara de mau”, que podia ser confundido com “feio”, equivale a ser um criminoso ou, a ter propensão inata para a criminalidade. Mas, a frenologia e os livros “científicos” de Lombroso marcaram época e influenciaram decisões judiciais. Lombroso precisa ser citado, para entendermos as diferenças entre a descrição antropométrica física e, sua distante relação com a realidade sócio-política das relações entre os seres humanos.

Exemplo de crânio do Lombroso, Museu de História Natural – seção biomédica em Firenze – Itália.
Catálogo de Lombroso, com fotos dos criminosos e crânios com medições .

05. O avanço da ciência, foi além das técnicas descritivas de classificação de milhares de fotografias de presidiários para “criar padrões faciais”, supostos explicativos do comportamento humano e de uma tipologia de delinqüente. A frenologia agora é reconhecida como um discriminatório erro do passado. Finalmente, com os avanços dos estudos genéticos, comparando grandes amostras dos gens de populações de todos os continente, se descobriu que: todos os seres humanos são da mesma espécie. Na essência, nada difere entre um negro e um branco, um asiático de um aborígene australiano, uns considerados feios e outros belos, etc…todos são iguais em sua essência genética.

06. Não existem diferentes”raças” humanas. As classificações raciais, como as que usavam as escalas cromáticas da pele, apenas diziam o óbvio, que indivíduos tem cores e aparências diferentes. Recordamos que existiram 36 escalas de cor de pele, criadas pelo austríaco Von Luschan no Séc. XIX, para “pesquisar raças” e… classificar pessoas. Finalmente, o médico dermatologista Thomaz Fitzpatrick fez a escala de fototipos, em 6 níveis de classificação da pele humana. Uma escala da maior para menor resistência à exposição dos raios ultra-violetas na pele humana; das mais claras (menos resistentes) até as mais escuras (mais resistentes), dependendo da quantidade de melanina na pele, o protetor da ação solar, vejamos:

A escala desenvolvida por Fitzpatrick estimava a resposta de diferentes tipos de pele à luz ultravioleta.

07. A Europa, em seu avanço por outros continentes, ao defrontar-se com culturas e civilizações com grupos humanos de aparência diferentes da sua, por meio da cooptação mercantil ou pela força os dominou, impondo suas regras. A expansão mercantil se acelerou com a Revolução Industrial e, as “explicações científicas” sobre as diferentes raças, misturam aparências com povos e suas culturas. Assim complementam argumentos ideológicos, como da superioridade do cristianismo sobre os muçulmanos, budistas, civilizações americanas e/ou pagãos. A “ciência” da época justifica a superioridade do olhar dos brancos europeus, sobre os demais. O séc. XIX e início do XX, foi o período do Imperialismo Europeu sobre o planeta. Coube as descrições “científicas” das diferentes aparências humanas da época, a legitimação ideológica da dominação imperial branca sobre as colonias e/ou países submetidos à tratados. Isto justificava a existência da exploração de grupos humanos como sendo um certo “direito natural” dos brancos europeus pois, as nativos, eram povos de “raças inferiores” acentuando as desigualdades sociais, baseadas, entre outros, pelas diferenças de fenótipos. Recordemos que a expansão do capitalismo para controle dos mercados mundiais, resultou em sangrentas guerras coloniais e, influenciando a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais.

08. Portanto, as “classificações raciais das ciências”, tão bem analisadas por Anibal Quijano na categoria europocentrismo e agora também por Jessé Souza no Brasil, ao gerarem e reforçarem preconceitos, alimentaram conflitos, violências, resultando a característica cultural do racismo mundial como elemento de dominação e controle. As nações como sabemos, são construções políticas alicerçadas em narrativas que construam suas individualidade diferenciadoras das demais. Em muitos casos, com o idioma e os costumes e também, com o grupo dominante e seus fenótipos, podendo gerar chauvinismos e agressividades de ação política interna e externa.

Teste do saco de papel marrom- entre 1900 e 1950 o teste do saco de papel criado em Nova Orleans -Louisiana/EUA, foi usado para conceder ou negar privilégios em festas de Igreja, Fraternidades, Casas noturnas e até em algumas Universidades como teste de admissão de candidatos. Se a pele fosse mais escura que o saco de papel os privilégios eram negados.

09. Entre as duas Guerras Mundiais, as tensões internas da Europa, resultaram no uso de enfoques racistas para justificar políticas e programas discriminatórios e ações bélicas. A imaginada grande raça “caucasóide”, foi classificada em sub-raças onde os anglo-saxões, especialmente os germanos (alemães), elaboram um discurso da sua diferenciação dos outros europeus, latinos, eslavos, judeus, e povos de outros continentes. Os efeitos da derrota alemã na I Guerra Mundial (1914-1918) cria explicações paranóicas, resultando na ascensão do nazismo em 1933. O Estado nazista cria leis com uma hierarquia de raças, onde o superior é o alemão e, se procedem as restrições, perseguições das demais raças e, o extermínio em massa de judeus, ciganos, etc.. Este genocídio, em escala industrial de brancos contra brancos, só é interrompido com a derrota alemã na guerra. Derrota em que contribuíram, soldados de povos de todos continentes, da Europa, da África, da Ásia, da Oceania, da América do Norte e do Sul ( a nossa FEB). As raças classificadas como inferiores (eslavos, asiáticos, negros, mestiços,..), impunham a raça auto-denominada superior, a derrota militar total. Finalmente, com as Nações Unidas (ONU) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), todos são reconhecidos como iguais. Esta Declaração, foi o momento em que finalmente, a nossa espécie começou a dar mais sinais de inteligência humanística, ao constatar o óbvio, reconhecer a essência dos gens, muito além da aparência resultado de adaptações.

10. No entanto, sabemos que se mantem a ódio usando as diferenças de aparência. No Brasil, os resquícios do cruel uso no cativeiro dos africanos transplantados e, da população ameríndia escravizada e submetida, não resultou apenas nos caboclos, mulatos, cafuzos, as provas da harmonização entre cores-aparências diversas; Deixou também, os grilhões em muitos, de um inconsciente discriminatório e, neste tenso processo de mudança estamos como está bem documentado nos trabalhos recentes de Jessé Souza.

11. Os tempos mudam as percepções, agora, a antropometria, está à serviço da ergonomia, para subsidiar o melhor conforto e segurança no trabalho e em outras atividades. Afinal, nosso corpo não é sempre o mesmo, as mudanças adaptativas sempre vão aparecendo, como resultado da urbanização, sedentarismo e aumenta a quantidade dos obesos, exigindo novas cadeiras nos cinemas e aviões, etc…

12. É um fato de que somos diferentes na aparência corporal, como indivíduos e como agrupações sociais. Um Sueco representativo de Upsala, é diferente de um Moçambicano de Pemba, de um gaúcho de Jaguarão ou Vacaria, de um coreano de Inchón, etc… Mas esta visível diferença, como já dissemos, é explicada com os avanços da biologia, da genética ao estudar as adaptações das espécies flora e fauna em geral e, nela os humanos), aos diferentes climas da terra. As migrações de nossa espécie, desde sua saída da África (ver os ensaios “Homo sapiens” e “Mudanças na população” neste site), resultaram num natural e longo esforço adaptativo da espécie humana aos novos ambientes. A maior ou menor, exposição aos raios solares (radiação ultravioleta), durante centenas de gerações, ocasionaram as evoluções fenotípicas do organismo, como a mudança da cor da pele, cabelo, formato dos olhos, estatura, etc…. Afinal, se no genótipo temos a essência da espécie, no fenótipo, temos o registro do nosso prolongado resultado adaptativo nos diferentes continentes e biomas do nosso planeta. Portanto, como o isolamento dos grupos humanos resultou em diversidade de línguas, o ocorrido na aparência humana foi parecido. A vida prolongada e isolada em regiões de continentes com climas muito diferenciados, exigiram adaptações e, o processo de seleção natural fixa as mudanças nas aparências.

13. Mas, nas diferentes aparências, nunca prevalece o medo ou o ódio. Nas diferenças também temos a atração. A História da nossa espécie, não é um processo de apenas adaptação ao meio ambiente, é essencialmente um permanente processo de relações sociais. A espécie só existe por estar em sociedade, em contatos, em relações, em cooperação, amizades, mestiçagem e…infelizmente, também alguns desacordos.

14. Sim, somos diferentes. No Brasil, Agora quando o IBGE realiza o censo demográfico, todos auto- declaram o que são, humanos, cidadãos e com sua característica de idade, sexo e fenótipo cor da pele. Esta classificação é uma expressão cultural do que sentimos como indivíduos, segundo a nossa aparência em nossa cultura. Assim o IBGE quantificará a totalidade da população, e saberemos quantos, se consideram brancos, pretos, pardos, amarelos ou indígenas.

15. O Brasil, concordando com a classificação dos povos da américa Latina de Darci Ribeiro, no seu livro “O Povo Brasileiro”, somos um povo novo, junto com os colombianos, venezuelanos e os antilhanos., não é um povo transplantado como os Canadenses, Norte-Americanos, Uruguaios ou Argentinos, nem um povo testemunho, como os Mexicanos, Guatemaltecos, Equatorianos, Bolivianos e Peruanos. Como povo novo, continuamos em rápida transformação. O IBGE estimava que éramos 213,3 milhões de brasileiros em 2021, revendo nossos dados auto-declarados em 2010 quando éramos 191 milhões (enquanto aguardamos o atrasado Censo Demográfico), nos permite ver a pequena presença das populações originárias, os indígenas testemunhos e, melhor nos conhecermos. Vejam a tabela seguinte e o gráfico:

15. O interessante, é que a simplista escala de extremos diferenciadores entre P&B (pretos e brancos), vai se diluindo, pois são variantes de maior ou menor resistência a radiação solar, sempre se altera com a mestiçagem e, na medida que se alteram valores sociais, as percepções mudam, como a auto-classificação. No fundo, seja a classificação que usarmos, todos somos humanos, e como afirmava Darci Ribeiro “mestiço é que é bom”, pois devem se acabar os argumentos de usar apenas aparências, para esconder falsas superioridades, valores ou direitos.

Para acessar as estatísticas atualizadas da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE acesse o link abaixo:

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html

16. Sabemos, como Latino-americanos, da beleza de nossas diferenças e mesclas, como da pele canela, cantada no clássico bolero PIEL CANELA do porto-riquenho Bobby Capó, em 1953, que aqui deixo, como ilustração da beleza da diversidade em nossa espécie.

PARA AMPLIAR: PENA, Sérgio D. J. & BIRCHAL, Telma S. A inexistência biológica versus a existência social das raças humanas: Pode a ciência instruir o ethos social? S.Paulo: Revista da USP, nº68, dez/2005-dez/2006, 11p.; HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios (1874-1914). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, 546p.; Idem. A Era dos Extremos – O breve Século XX (1914-1991). SPaulo: Cia. das Letras, 1995, 597p.; PETRUCELLI, José & SABOIA, Ana (org.). Características étnico-raciais da população (classificação e identidades) IBGE: Rio de Janeiro, 2013, 208p.; RIBEIRO, Darcy. O Povo brasileiro (a formação e o sentido do Brasil). S. Paulo: Ed. Global, 2015, 360 p.; SOUZA, Jessé. A Guerra contra o Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Estação Brasil, 2020, 208p.; SOUZA, Jessé. Brasil dos Humilhados. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 214p.; QUIJANO, Anibal “Colonialidade do poder, Eurocentristmo e América latina em: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciências Sociais), 2005;

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