
CONTEUDO: 1. Uma “geral” no tema; 2. As drogas são parte das culturas; 3. Recordando as origens de algumas drogas; 4.O Tabaco: da elegância de fumar para seus efeitos…mortais; 5.Algumas quantidades; 6. Inquietações para continuar: 7. Para saber mais (compartilhando algumas fontes que me ajudaram).
- UMA ‘GERAL’ NO TEMA:
01. Quando nos referimos as “drogas de nossas vidas” não queremos dizer, que a tua ou a minha vida, sejam…uma droga, isto seria começar pedindo auto-ajuda. Nos referimos as substâncias, naturais, processadas artesanalmente ou industrializadas, agora sintéticas, que modificam as funções normais do organismo e, com as quais convivemos. Esta temática, tem íntima relação com outros ensaios (posts) deste site, tais como: As desigualdades…desafiam e, Consumir é a razão de existir?
02. Usando o critério de efeitos que ocasionam no organismo, no comportamento individual e sociedade, elas são classificadas como: i. Drogas depressoras: alcool, barbitúricos, diluentes (solventes), quetamina (anestesia p/cavalos usada como estimulante em festas), cloreto de etila (a carnavalesca lança perfume), clorofórmio, ópio, morfina, heroína, cola de sapateiro; ii. Drogas estimulantes: cocaína, crack, cafeína, teobromina (tem no chocolate), anfetaminas, metanfetamina, GHB (gama-hidroxubutirato o “ecstasy líquido” dá euforia e aumenta o desejo sexual); iii. Drogas perturbadoras: Chá de cogumelos, LSD, maconha, haxixe, ecstasy (esta categoria “perturbadora” (?) tem duvidosa precisão. Estupefaciante será Mais correto? O usuário deve ficar estupefato de sentir… identificar cores pelo olfato,, etc…).
03. Sintetizemos, não as drogas, mas algumas características das mesmas: i. As depressoras, diminuem a atividade do cérebro (o Sistema Nervoso Central -STN), deixando o usuário “desligadão das suas ações” . Reduzem a tensão emocional, a capacidade de atenção e concentração, a memória, podem dar sonolência, embriaguez e coma, podem ocasionar delírios, são também chamadas de psicodislépticas; ii . As estimulantes, aceleram as atividades do do cérebro (o STN), aumentam a adrenalina, diminuem a fadiga e ativam os sentidos, o usuário fica “ligadão”, em constante estado de alerta. Elas diminuem a fome, o cansaço e o sono, produzem estados de excitação euforia e aumento de ansiedade; iii. As perturbadoras modificam a qualidade da atividade cerebral, distorcem o seu funcionamento. despersonalizam a percepção do usuários, provocam deformações nas imagens, são as alucinógenas (alteram a percepção espaço tempo) podem gerar desde sensação de bem estar, até delírios e alucinações – muitas são visuais, auditivas e até olfatórias.
04. A empresas farmacêuticas pesquisam drogas, atuais e novas, para saber seus efeitos temporários, permanentes, prováveis, etc… na saúde e nos comportamentos; A indústria produz drogas, para tratar a dor, a insônia, a ansiedade, diminuir peso, dar euforia, etc..,; Se pesquisa e os tstes garantem resultados, temos o valor de uso desta mercadoria, abrindo a etapa da alternativa de completar o ciclo, valor de troca com as vendas e o lucro. A mercadoria drogas, dos diversos tipos, quer artesanal que industrializada, é geradora de lucros, que são ampliados pelo descontrole total de preços de atuar, geralmente, num mercado de ilícitos.
05. A conhecimento sobre os efeitos das drogas no comportamento são antigos. A tensão do combate diminui com o usotabaco, portanto nas guerras antigas, garantir fumo para os soldados sempre foi essencial. Agora, graças a laboriosa compilação de Kamiensky (Las drogas en las guerras), se desvendeu o uso das mesmas, em momentos decisivos da História. Isto também está bem detalhado no trabalho de Ohler sobre a Alemanha, com um capítulo especial para Hitler e seu consumo de drogas. Naquela época, o pervitin (metanfetamina) era usado cotidianamente.
06. A forma de consumo das drogas mais antiga, é a via oral e por inalação, depois de 1853, com o surgimento da agulha de injeção, surge a administração direta nas veias. As mais antigas drogas são as naturais que, com o avanço da capacidade de análise química, resultou na produção, em escala industrial, das semissintéticas e das sintéticas, cuja maior característica são o acesso ao consumo em drágeas, injetáveis, supositórios e novas formas de inaláveis (cigarro eletrônico), bem como produtos com efeitos mais poderosos e… perigosos. Nos últimos anos, as novas drogas sintéticas de uso injetável, tem ampliado a mortalidade por overdose.
2. AS DROGAS FAZEM PARTE DAS CULTURAS:
07. A classificação também é usualmente feita como drogas legais e ilícitas. As primeiras se referem as que são reguladas pelos governos, determinando o que pode ser produzido (bebidas fermentadas, destiladas, drágeas,..), quem pode consumir, quando e onde, etc… A legislação também regulamenta os processos de produção e comercialização e…a tributação, destas drogas. O que não entra no marco regulamentado por lei, é ilegal, sendo punido de formas diferentes em cada país. Como as drogas são uma antiga mercadoria internacional, os regulamentos nacionais geralmente estão vinculados a acordos internacionais da ONU.
08. A regulamentação entre drogas legais e ilegais, não se vincula com os efeitos das mesmas na saúde humana. Prova disto é a fabricação e venda legal, do álcool, do tabaco, refrigerantes adoçados, drogas que ocasionam conhecidos efeitos daninhos na saúde dos usuários.
09. Chamo de “drogas de nossas vidas”, pois estão em nosso cotidiano, de forma legal ou ilegal. Ninguém está imune às mesmas, todos já fomos anestesiados no dentista, já comemos chocolate, bebemos refrigerantes, tomamos analgésicos, xaropes antitussígenos, elixir paregórico, remédios para emagrecer, já vimos na missa o uso “sagrado” do vinho, já o bebemos nas festas, assim como a cerveja e destilados e alguns se embriagaram até a inconsciência; outros, já fumaram maconha, usaram lança-perfumes, cheiraram pós ou “solventes”ou, consumiram “pílulas estimulantes”, etc….
10 . Embora as drogas estejam em nossas vidas, existe uma distinção, de difícil objetividade, entre o que é consumido com aceitação social ou, que a nossa cultura limita ou proíbe e o que as leis reprimem; E também, a dificuldade de delimitar, entre o que consumimos pouco, raramente ou, que consumimos regularmente, ocasionando dependência, seja ela uma droga legal ou ilegal, seja um medicamento ou não.
11. Podemos pensar numa escala de consumidores de drogas, desde o que nunca consome, o abstêmio, passando pelo consumidor esporádico, o consumidor moderado, até o viciado em drogas, o que não pode viver sem o seu consumo regular. A distribuição da população nesta “escala” diferenciada, resultará na caracterização de peculiaridades de comportamentos individuais e sociais, entre culturas.
12. Para simplificar, recordemos o velho dicionário Aurélio, onde consta que “cultura é o complexo de padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e, característicos de uma sociedade”. Desta forma, cada cultura, produto de históricas relações sociais em determinado espaço, tem sua forma de apropriar energias do meio natural em que habita, criando suas práticas produtivas, costumes, religiosidades tipicidades do seu consumo, de lazer e gastronomia.
13. O uso de drogas ingeríveis ou inaláveis, se originam na revolução agrícola. Dos alimentos básicos, pela fermentação, surgem bebidas alcoólicas, fruto e uso das culturas antigas, nas suas festas familiares e religiosas. Sabe-se que com o avanço do método de destilação, o teor alcoólico das bebidas aumentou.
3. RECORDANDO AS ORIGENS DE ALGUMAS DROGAS:
14. As plantas, são as matérias primas das bebidas alcoólicas da humanidade. Assim, do arroz, irá surgir o saquê no Japão, o baijou na China, o soju na Coréia; O milho, além da chicha artesanal, vai dar contribuir, com outros cereais, para as cervejas; A cana de açucar, nas Américas, com a garapa e o melado, serão as bases para a cachaça e o rum; O agave, mexicano, é a base essencial para a tequila; O álcool da batata, na Europa, foi essencial para o surgimento da vodka; A cevada, trigo, milho, darão suporte para os uisques; A cevada, será a contribuição sumeriana da popular cerveja.
15. O fruto da videira, a uva, é um exemplo de sucesso expansionista do vinho, um produto cultural. Esta planta, que no inverno seca, dando aparência de morta e com a primavera e verão dá frutos, os egípcios antigos já relacionavam com a imortalidade e, dela produziam sucos e vinho. Isto vai estender-se pelo Mediterrâneo. As religiões judias e, principalmente o cristianismo católico, utilizam o vinho em suas liturgias. A expansão da Europa católica, translada as videiras, pois tomar vinho é um ritual religioso permanente e hábito alimentar ainda anteror a crstianismo. Assim, as videiras deixaram seu “nicho mediterrâneo-Europeu” e se disseminaram, deram frutos e passaram a ser consumidas em outros continentes, resultando nos nossos vinhos, espumantes, conhaques, assim como o delicioso singani na Bolívia e o pisco no Peru.

16. A MACONHA (cannabis sativa) originária da Ásia central, se expandiu pelo mundo. Esta planta cujas fibras (cânhamo) eram utilizadas para a produção de velas para embarcações e, também para produzir papel. A primeira Bíblia impressa por Gutemberg, foi em papel de cânhamo. Recordem que Pombal criou uma empresa estatal para a produção de Cânhamo em S.Leopoldo (RS), a Real Feitoria do Linho-Cânhamo, em 1783. O cânhamo, foi trazida para as Américas para a produção de velames de barcos mas, também usado com fins recreativos, a maconha, tanto pelos escravos africanos, quanto pelos marinheiros e colonizadores. Isto expandiu seu uso em no Brasil e América do Sul.
17. No entanto da cannabis também se produz o haxixe. O haxixe, também é antigo e se expande da Índia para o oriente próximo e o mundo. Na Índia, o haxixe é um presente do Deus Shiva, usado em rituais de meditação portanto, faz parte milenar da sua cultura, assim como o vinho no ritual da missa para os católicos. O haxixe, é um produto macerado dos tricomas (pelinhos das folhas da cannabis) onde existe mais concentração dos canabinóides. Um sucesso de consumo, fazem séculos, se expandindo pelo Oriente próximo para o Norte da África e Europa.


18. Desta forma, da Ásia central, surge a maconha para nosso tema, se transforma aqui em “baseado” e também o haxixe. O uso de ambos, nunca sofreu drásticas limitações. No caso brasileiro, o racismo que estruturou nossa sociedade, vinculou a maconha aos escravos e as práticas religiosas de origem africanas e, com as perseguições do candomblé, durante a República Velha, foi criminalizando o seu uso. Em outros países, ainda antes das pesquisas para seu uso medicinal, a cannabis não foi tão discriminada.
19. Atualmente, a cannabis está cada vez mais, com seu uso permitido. Já regulada na Holanda, Uruguai, Jamaica, Canadá, EUA (atingiu a 35 Estados para uso medicinal e 16 para uso recreativo), Geórgia, África do Sul, Luxemburgo e México (uso recreativo privado).
20. Da planta da maconha, se extrae o canabidiol, usado para a insônia, ansiedade, epilepsia, mal de Parkinson, esclerose múltipla, autismo náuseas resultantes da quimioterapia. A ampliação das pesquisas e descobertas, indicando poucos efeitos negativos e baixa possibilidades de adição, bem como novos medicamentos, tem acelerado a aceitação do uso da maconha, o presente de Shiva para meditar.


21. A papoula (Papaver somniferun), também oriunda da Ásia, além de bela flor ornamental, serve como alimento e… para produzir o ópio. A papoula, conhecida como “dormideira”, tem uso muito antigo, registrado pelos sumérios, egípcios, assírios e romanos, na medicina. Na Idade média, Paracelso utilizava a mesma como um dos componentes do seu láudono, um dos primeiros anestésicos e, até hoje, ela está presente na essencial morfina e, na alternativa que a Bayer encontrou com a heroína, vendida inicialmente como medicamento. A papoula continua essencial na medicina principalmente por sua função anestésica, são os medicamentos opioáceos, efetivos e perigosos por causarem dependência. A morfina, utilizada na Guerra da Secessão dos EUA e depois, gerou grandes quantidades de dependentes, daí as pesquisas e as esperanças com a heroína como alternativa. Muitos inicialmente, se empolgaram com a heroína para fins medicinais, como Sigmund Freud.
22. Vale recordar, que o persistente déficit comercial da Inglaterra com a China, ocasiona as duas Guerras do Ópio ( 1839-42 e 1856-60). Como os chineses não compravam-trocavam seus produtos pelos da Inglaterra mas aceitavam algum ópio, este comércio cresceu, sendo logo proibido pelo Império Chinês pelos seus efeitos do aumento de viciados. A Inglaterra se transforma em contrabandista do lucrativo ópio e nos portos se amplia a corrupção. Quando os chineses reagem e cargas de contrabando de ópio inglês são queimadas, se inicia Guerra para “abertura dos portos” à todo o comércio, que consegue logo apôio de diversos países (França, EUA), resultando em derrota para a China. Só muito anos depois, com Mao-Tsé-Tung (depois de 1949), o ópio tem seu consumo proibido na China.


23. A cocaína (erythroxxylom coca), é uma planta andina (Colombia, Equador, Peru, Bolívia, Norte da Argentina), usada fazem milênios com estimulante, analgésico, antiviral, como infusão. As folhas de coca mastigadas, são estimulantes, diminuem a sensação de fome, facilitam a digestão e,…o essencial, combatem o mal das alturas, permitindo trabalhar nas grandes altitudes andinas. A coca, faz parte do consumo cotidiano das populações andinas fazem milênios, consumidas assim como o chá da “índia”, o café e a nossa erva-mate.
24. A cocaína não é apenas consumida em folhas sob a forma de infusões (chá de coca para as alturas) ou para mascar, ela é elaborada e transformada em pasta base, crack, etc… Nesta forma, processada, industrializada, é que se usa como mercadoria no mundo das drogas.
25. Depois da crise econômica de 2008, as drogas sintéticas, mais baratas de serem feitas e sem dependerem de logísticas de transporte de matérias primas produzidas distantes dos consumidores, se ampliaram. As mesmas, geralmente em formato de drágeas, são mais fáceis de transportar e, geralmente tem efeitos mais potentes.
4. O TABACO – Sobre a elegância de fumar e seus efeitos mortais:
26. O tabagismo é mais recente, é a contribuição da América do Sul à sociedade global. Sua expansão se origina na conquista, depois de 1500, quando se difundiu pelo mundo. O tabaco, originário dos Andes, fazia parte do consumo de quase todas populações ameríndias e, foi encontrado pelos espanhóis no Caribe, sendo dali transladado para a península ibérica. O embaixador francês em Lisboa, Jean Nicot, enviou plantas para a França, como remédio contra migranha e, por isto a planta recebeu o seu nome a nicotiana tabacum. O tabaco, inalado, aspirado ou mascado diminui rapidamente a tensão mas, seu efeito logo desaparece, o que demanda o seu uso continuado e… adição ao consumo do mesmo. O tabaco é consumido sob a forma de charuto (as folhas da planta enroladas) em cachimbos, em cigarros (tabaco processado enrolado em papel), em rapé (em pó para cheirar) e, em pedaços para mascar.
27. As guerras, como a da Criméia (1853-1856), impulsionaram a aceitação do tabaco, tanto pelo lado turco (cachimbos), quanto pelas tropas francesas e inglesas, com cigarro de papel. Já na I Guerra Mundial (1914-1918), o tabaco fazia parte do direito de cada soldado, junto com a sua ração alimentar diária. O surgimento do cigarro industrializado, que não exigia o ato de cortar o tabaco, enrolar, etc.., facilitou seu uso e expandiu seu consumo. Segundo o Tobacco Atlas, em 2016 se estima que foram consumidos 5,7 trilhões de cigarros no mundo, sem contar outras modalidades de uso. O Tabaco, ao longo de todo o século XX, fez parte da nossa paisagem social, dos filmes, da propaganda, do conviver social e familiar; Respirar com fumaça de tabaco fazia parte de nossa cultura.
28. Apenas nas últimas décadas, estudos demonstraram o tremendo dano à saúde humana. causado pelo tabagismo. A OMS (Organização Mundial de Saúde), estima que 8 milhões de pessoas morrem anualmente, pelo uso da nicotina, destas, 1,2 milhões são fumantes passivos. Infarto, AVC, fibrose pulmonar câncer (na boca, laringe, pulmão), deformação de fetos, etc.., são os efeitos mais conhecidos.


29. No entanto, esta droga, estava arraigada na cultura e, os debates, as legislações, as regras e políticas, demonstram como é difícil fazer a razão sobrepujar os usos culturais e interesses econômicos ocultos. Até o momento, apenas o pequeno Butão, em 2004, foi o país que proibiu totalmente o consumo de tabaco. A proibição total também existe no Turcomenistão e, recentemente a Nova Zelândia, com sua política “smoke free”, com proibição total de publicidades, consumo público, informações de saúde, obrigação de redução de nicotina nos cigarros vendidos e, que seja proibida a venda para os que nasceram depois de 2008, reforça as políticas de liberar o país desta droga. As medidas de restrição de propaganda e proibição de uso em recintos públicos se ampliam em toda parte.

5. ALGUMAS QUANTIDADES:
30. Conhecer as quantidades auxilia a ter mais objetividade. As drogas, são um tema carregado de qualitativos, de intolerâncias, de grandes interesses mercadológicos, penalizações legais em questionamentos, e custos individuais, familiares e sociais ascendentes, vejamos alguns números.
31. Inicialmente, saber quantos somos, para ter uma referência do conjunto, é necessário para dimensionarmos o efeito social do tema. Hoje, se estima que somos uns 8 bilhões de pessoas no planeta. Para nos situarmos, recordamos que nós os brasileiros, somos uns 215,3 milhões de habitantes (Censo IBGE 2022), apenas 2,7% da população mundial. Quantos somos afetados pelas drogas?
32. Comecemos pelas tristes estatísticas dos homicídios intencionais, que excluem os referimos as mortes em conflitos bélicos. Em 2017, ocorreram 463.321 homicídios, um aumento de 4% em relação com 2015, segundo o “Estudio Mundial Sobre Homicídios 2019” da Oficina das Nações Unidas Contra as Drogas e o Delito UNODC. Quantos destes, se relacionam com o uso de drogas? Este documento, especifica as condições do homicida em relação a drogas sómente em 17 países em 2015; se constatou que 63% dos homicidas, não estavam drogados mas, que 33,3 % dos mesmos realizaram o crime alcoolizados; registrou-se que 2,7% tinham consumido outras drogas, 1% outras substâncias psicoativas que incluem os remédios?. Portanto, os efeitos do álcool nos homicidas, é o preponderante, em comparação com os homicidas que se constataram estarem sob efeitos de outras drogas. Estes dados, revelam que as restrições ao uso de drogas, como o álcool qe é legalizado, permitiria diminuir agressões físicas e os homicídios.
33. Temos que recordar o tabaco, uma droga que todos sabemos prejudicial à saúde individual, grupal e que onera grandes gastos em saúde. A OMS estima que em 2016 tivemos 7,6 milhões de mortes por doenças relacionadas com o tabagismo. Destas, 5,1 milhões eram homens e 2 milhões mulheres. Isto onerou em aproximadamente US$2 trilhões os gastos mundiais com saúde.
34. No Brasil, o mais importante estudo nacional sobre o tema das drogas, o “III Levantamento Nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira” da FIOCRUZ, publicado em 2017, quando éramos 204,5 milhões de pessoas, trabalhou com uma grand amostra da população entre 12-65 anos. Esta amostra nacional, com todos os Estados, municípios de todos os tamanhos, até os da faixa de fronteira, contem dados por sexo, faixa etária, escolaridade, etc.., é muito preciosa pois, é superior aos dados das Nações Unidas, (UNODC), que tem como fontes de registros governamentais, como as polícias, alfândegas, saúde. Deste trabalho referencial nacional, transcrevemos os dados sobre o consumo de álcool:
BRASIL/2015: Número de pessoas, entre 12-65 anos, que consumiram bebidas alcoólícas na vida, nos últimos 12 meses, nos últimos 30 dias e, em “binge drinking”:
| FREQÜENCIA CONSUMO ÁLCOOL | Nº PESSOAS: |
| Já consumiu na vida | 101.615.000 |
| Consumiu últimos 12 meses | 65.943.000 |
| Consumiu últimos 30 dias | 46.036.000 |
| Consumo esporádico pesado “binge drinking” | 25.311.000 |
35. Os dados, de 46 milhões de consumidores de álcool nos últimos 30 dias e, de 25,3 milhões de consumidores pesados, ou seja de mais de cinco doses por pessoas, confirmam esta droga como a de maior uso entre nós. A mesma se vincula com acidentes de trânsito, violência doméstica e social, homicídios e altos custos sociais (familiares, carcerários, de saúde..,). Os efeitos do alcool no organismo, segundo a OPAS (Organização Panamericana de Saúde), ocasionou a morte de 85 mil pessoas no continente sendo mais de 16 mil pessoas no Brasil.
36.Quanto ao tabaco, sob todos tipos de uso, principalmente cigarro industrializado, é consumido constantemente por 26,4 milhões de pessoas. Recordamos, que a mortalidade pelo tabagismo se estima em 446 pessoas/dia no Brasil.





37. No estudo acima citado da FIOCRUZ, grave é que, 4,6 milhões de entrevistados informaram terem tomado medicamentos controlados sem receitas médica, nos últimos 12 meses, principalmente analgésicos opioáceos e tranquilizantes benzodiazepínicos.
38. No entanto, o mais valioso da contribuição da FIOCRUZ, é a melhor e mais atual aproximação sobre o uso das drogas ilícitas no Brasil, vejamos:
BRASIL/2015: Numero de pessoas, entre 12-65 anos, que consumiram drogas ilícitas na vida, nos últimos 12 meses e, últimos 30 dias, por tipo de substância:
| SUBSTANCIA | NA VIDA | 12 MESES | 30 DIAS |
| Maconha | 11.722.000 | 3.865.000 | 2.223.000 |
| Cocaína | 4.683.000 | 1.340.000 | 451.000 |
| Crack e similares | 1.393.000 | 451.000 | 171.000 |
| Solventes | 4.248.000 | 318.000 | 85.000 |
| Ecstasy/MDMA | 1.089.000 | 235.000 | 53.000 |
| Drogas injetáveis | 591.000 | 246.000 | 34.000 |
| Heroína | 460.000 | 82.000 | 0 |
| LSD | 1.276.000 | 289.000 | 60.000 |
| Ketamina (anestésico p/equinos) | 298.000 | 184.000 | 13.000 |
| Cha de Ayahuasca | 567.000 | 181.000 | 118.000 |
39. Se o entrevistado, já teve contato “alguma vez na vida”, é muito diferente do que se consumiu nos últimos 12 meses ou, no último mês. No período de tempo menor, é que se encontra o indício para dimensionar a dependência. No entanto, como alerta o documento da FIOCRUZ, os dados do uso de crack, neste levantamento, são questionáveis. O usuário deste produto se afasta da família e, como as entrevistas eram domiciliares, pode haver um número superior que consomem esta droga.

40. Nos dados acima, recordem que o chá de Ayahuasca, já não está criminalizado devido ao seu uso em rituais religiosos. Realmente predomina a maconha, a que tem menos efeitos daninhos de todas citadas. Interessante e, que geralmente não consta das estatísticas da UNODC, é a grande quantidade de nossos usuários de solventes, tipo a “cola de sapateiro”, os thiners, lança perfume, gás de buzina e outros derivados geralmente de uso inalante.
41. No entanto, este “panorama nacional”, retrata números que não permitem comparações temporais, devido ao seu aperfeiçoamentos metodológico nesta grande amostragem. A gravidade do tema, exigiria pesquisas, pelo menos bi-anuais desta envergadura, para a construção de séries históricas e aperfeiçoamentos das políticas públicas.
42. Uma aproximação global conhecida, temos no World Drug Report 2020 do UNODC, com dados para as drogas ilícitas, ondeestima que os consumidores no ano de 2018, era de 269 milhões de pessoas, uns 5% da população mundial, muito acima do percentual de viciados no consumo de ilícitos do que no Brasil.
6. INQUIETAÇÕES PARA CONTINUAR:
43. As dificuldades dos indivíduos atenderem suas necessidades básicas e as pressões consumistas, são geradores de desilusões, como já abordamos em outros ensaios. Se comprova que em situações de “desesperança”, como as crises econômicas que aprofundam desempregos e rebaixam salários, resultam em ampliação no consumo de drogas, tanto lícitas quanto ilícitas. As mesmas acabam servindo de “amortecedores” com potencial auto-destrutivo para os usuários nesta crise social. Numa sociedade em que as pautas do consumismo são permanentes, em que as transições tecnológicas são rápidas, em que o “pleno emprego” é inalcançável, em especial para os jovens, as esperanças são poucas.
44. Qual a motivação para estudar se na própria família os adultos com estudos não tem trabalho? Como se negar a um trabalho informal-ilegal com o traficante, quando não existe alternativa de emprego, nem no SINE, para matar a fome? Como esquecer fugir da rotina, as desilusões e tristezas? Como negar que as drogas psicoativas resultam em momentos de alívio? Como negar compartilhar alegrias, consumindo drogas com os amigos?
45. A História e a antropologia comprovam que a humanidade sempre consumiu drogas. As mesmas são usadas para dar mais força e resistência no trabalho, mais “objetividade e menos temor” guerras, para ajudar a relaxar do excesso de trabalho e das tensões, para dar alegrias e sonhar e, por isto, estão incorporadas na cultura.
46. Os costumes, as normas sociais regulamentam seu uso, sua conveniência e oportunidade. No entanto, quando elas se transformam em mercadorias, a intencionalidade do lucro, altera a oportunidade e intensidade do seu uso. Os usos abusivos, com efeitos na saúde e anti-sociais ocorrem, gerando confltos, demandando restrições, proibições e punições. Isto, quando relacionado com preconceitos, aprofundam o problema social e estigmatizam o seu uso.
47. Se, antigamente os grupos sociais produziam e consumiam suas substâncias psicoativas, para atender suas necessidades de trabalho e de lazer, agora com a mercantilização da mesma, ocorre separação profunda entre o produtor e o consumidor. Nestas mercadoria, são segmentados os atores, os que produzem, os que transportam, os que processam, os que distribuem, os atores que acobertam, e os que finalmente compram para consumir, dos que vendem e lucram. Embora a “declaração de guerra das drogas” seja sobre todos, os mais estigmatizados, vulneráveis e fáceis de localizar, são os que produzem, transportam e distribuem e…os que consomem. Os usuários, são vistos como “fracos” pois se deixaram possuir pelo vício e os produtores, são malignos…pois alimentam os viciados, todos, sob a alcunha geral de traficantes, são perseguidos e condenáveis.
48. A ilegalidade das drogas, alimenta muito lucro, que não ficam com os produtores e outros elos dos trabalhos informais da rede viabilizadora do negócio. Os usuários arcam com os riscos dos efeitos do consumo, doenças e mortes e, agravam custos para o sistema de saúde. Os produtores arcam com risco de prisões, destruições de seus cultivos, instalações, etc…
49. Os adictos aos psicoativos, nunca saberemos seu número; os dados do comércio ilegal sempre dificultam ter uma noção que não seja aproximada, assim como o estigma de ser viciado dificulta informações objetivas. Entre os mesmos, existem diferentes produtos e diferentes formas de uso, assim como tb. podem utilizar diversos produtos, dependendo da oportunidade de acesso, bem como o consumo com o mais usual, as bebidas alcoólicas. No entanto, dados de prisões, bem como de atenção médica, indicam sua existência persistente e crescimento.
50. No entanto, se o álcool regulamentado permite um consumo mais confiável dos seus efeitos, o mundo ilegal das drogas psicoativas e, no uso injetável não acontece isto. Os produtos adulterados, de diversas formas são um fato e um risco permanente para o usuário.
51. As ações repressoras, como a destruição de 370 de laboratórios de drogas ilegais na Europa em 2019, segundo o “Relatório Europeu Sobre Drogas”, parecem não abalar o consumo. Por outro lado a pesquisa lança a cada ano, novos e mais potentes psicoativos sintéticos num mercado sedento por inovações.
52. Os custos da repressão de algo, que tem base cultural e é usado para lucro ilegal são cada vez maiores, sem falar nos custos de encarceramento, para a saúde e para as famílias.
53. Se os dados brasileiros dão um percentual de afetados menores que os dos “países do Norte”, os viciados estão entre nós, são resultado de nossa realidade social, são um segmento social, trágico para quem nele está envolvido, de nossa sociedade. Sempre que um usuário de drogas “lícitas e ilícitas” ultrapassar os “limites” do seu uso recreativo, se auto-infligindo danos e principalmente, afetando à família e a comunidade, então nossas vidas, direta ou indiretamente, estarão envolvidas pelo tema.
54. Tudo indica que existem no nosso contexto social, interesses para que continue um verdadeiro círculo vicioso, como afirma Luciana Boiteux em sua tese de doutorado sobre o assunto: “consumidores compram drogas, traficantes vendem, os excluídos do sistema se empregam na indústria ilícita com salários melhores; traficantes precisam comprar armas, o comércio ilegal quer vender armas; os lucros dos tráficos (de drogas e de armas) são exorbitantes; as altas esferas de poder tem sua representação na indústria e absorvem parte do lucro; o dinheiro sujo circula e precisa ser lavado; as instituições financeiras lavam o dinheiro; a indústria do controle do crime quer vender segurança, a população aterrorizada quer comprar segurança; a “guerra às drogas” é cara mas o dinheiro é público…(p.205)” .
55. O leitor deve ter percebido, que no tema aqui abordado de forma rápida, é importante conhecer mais suas causas (econômicas e ideológicas) e, compreender as alternativas sociais possíveis para uma situação a cada dia mais intolerável. O que tentaremos no ensaio (post) seguinte, na Parte II, deste tema.
Obrigado.
7. PARA SABER MAIS (compartilhando algumas fontes que me autoajudaram):
RELATÓRIO EUROPEU SOBRE DROGAS 2021 (tendencias e evoluções). Lisboa: Observatório Europeu de Drogas e Toxicodependência, 2021, 60 p.; III LEVANTAMENTO NACIONAL SOBRE O USO DE DROGAS NA POPULAÇÃO BRASILEIRA. Rio de Janeiro: MS/FIOCRUZ, 2017, 528p.; SERMANN, Marcelo da Nova Moreira. Do bar para o xadrez: a criminalização do ato de beber e o controle institucional do comportamento social dos indivíduos na condução de veículos. Niterói: UFF/ICHF, Pós-graduação em Antropologia, 2010, 202 p.; OSPINA, Guillermo Andrés et. ali. Amapola, ópio y heroína (la producción n Colombia y México). Amsterdan, TNI (Trasnational Intitute), 2018, 40p.; MARTINS, Stella Regina. Cigarro eletrônico, o que sabemos. Rio de Janeiro: INCA (Inst. Nacional do Câncer), 2016, 120p.; UNODC. Estudio mundial sobre el homicídio 2019 (resumen ejecutivo). Viena: UNODC (Oficina de las Naciones Unidas contra la droga y el delito), 2019, 45p.; UNODC World Drugs Report 2020 (resumen ejecutivo). Viena: UNODC, 2020, 18p.; ALMEIDA, Walter Aparecido Santos de. Análise Econômica das mudanças das políticas sobre drogas: Canadá, Portugal, Uruguai e estado do Colorado (EUA). Dourados (MS), UFGD/FACE, 2017, 80p.; PINTO, Márcia & PICHON-RIVIERE, Andrés & BARDAH, Ana. Estimativa de carga do tabagismo no Brasil: mortalidade, morbidade e custos. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, Cadernos de Saúde Pública 31 (6), jun/2015, 15p.; THE TOBACCO ATLAS (sith edition). Atlanta: American Cancer Societey and vital strategies. 2018, 58p.; OHLER, Norman. HIGH HITLER: como o uso de drogas pelo Fuhrer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich. S.Paulo: Edit. Planeta do Brasil, 2017; KAMIENSKI, Lukasz. Las drogas en las guerras. Barcelona: Ed. Crítica, 2017, 592p.; CARNEIRO, Henrique. Proibição da maconha: racismo e violência no Brasil. Cahiers des Amerique Latine 92, 2019, 135-152.; PAIVA, \luiz Guilherme de. Panorama internacional das políticas de sobre drogas. Brasília: IPEA, Boletim de Análise Político-Institucional. nº18, dez/2018; MACONHA (coletânea de trabalhos brasileiros). Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Educação Sanitária, MS, (Gráfica do IBGE), 2ª edição, 1958, 387p.; CARVALHO, Jonatas Carlos. A emergência da política mundial de drogas o Brasil e as primeiras Conferências internacionais do ópio. P. alegre: Oficina do Históriador, EdiPUCRS, v.7, nº1, jan-jul/2014, 153-176.; UNODC. Claves para entender la crisis mundial de opióides. Viena, UNODC, 2021, 12p.; KARAM, Maria Lúcia. Legislações proibicionistas em matéria de drogas e danos aos direitos fundamentais. SPaulo: Revista Verve, PUC/SP, v.13, nº12, 207 181-212.; FIGUEIREDO, Daniel Jose & QUADROS, Gonçalvez. Política criminal de drogas: afronta a direitos fundamentais e desproporcionalidade sob o argumento de proteção à saúde. Canoas, Revista Redes, v.9, nº1, abr/2021, 16p.; BOITEUX, Luciana. Controle penal sobre drogas ilícitas: o impacto do proibicionismo no sistema penal e na sociedade. S.Paulo, USP/Faculdade de Direito (tse de doutorado), 2006, 273p.; BOITEAX, Luciana. Liberdades individuais, direitos humanos e a internação forçada em massa de usuários de drogas. Belo Horizonte: RBEC, v.7, nº35, jan-abr/2012; SEIBEL, Sérgio. A lei 11.343/2006 e o impacto na saúde pública. SPaulo, IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), Boletim Especial sobre drogas; UNODC. Pasta base de cocaína (cuatro décadas de História: actualidad y desafios). Lima, UNODC, 2013, 188p.; UNODC. Claves para entender la crisis mundial de los opióides. Viena: UNODC, 2019, 12p.; UNODC. Terminologia e información sobre drogas. Viena: UNODC, 3ª edición, 2018, 86p.; RELATÓRIO EUROPEU SOBRE DROGAS (RED) 2021 (tendências e evolução). Luxemburgo. Observatório europeu sobre drogas e toxicodependência., 2021, 60 p.;

