NEGÓCIO LUCRATIVO…É VENDER ARMAS

CONTEÚDO: 1. Com tiro…mata melhor; 2. As armas para dar lucro, precisam de marketing permanente; 3. O Estado é o regulador; 4. Lucrar com armas é o objetivo, os efeitos mortais são…da sociedade; 5. As armas não são um meio para a paz; 6. Alguma autoajuda.

  1. COM TIRO, MATA MELHOR:

01. Nos referimos as mortes violentas, propositais ou acidentais as intencionais. Não as relacionadas com situações de guerras e conflitos armados reconhecidos. São as resultantes de disparos por meio das ferramentas construídas para matar. Ocasionadas por armas leves, feitas com uma tecnologia específica, uso da expansão de gases (a velha pólvora), para lançar um projétil sólido (a bala) direcionado por um tubo e… matar oponentes. Elas substituíram o arco e a balestra em sua função de matar à distância, tanto a caça, quanto os seres humanos. Agora, que compramos carne no supermercado, não precisamos caçar, as armas de fogo são desenvolvidas, para matarmos entre nós.

02. Para entender a arma de fogo como “ferramenta” do cotidiano, temos que nos lembrar da caça. As necessidades de busca de alimentos na natureza desenvolveram os utensílios de caça como as armadilhas, o arco e a flecha. As armas de fogo são ferramentas que evoluíram deste contexto. Aumentaram a capacidade do caçador, até espécies, como os bisontes das pradarias norte-americanas ou as emas no nosso pampa. Elas são essenciais nas alta dependência alimentar com o meio selvagem natural. Um exemplo nacional, é seringueiro que tem como ferramenta padrão, sempre uma espingarda, tanto para a defesa contra onças, mas principalmente, para caçar alimentos para sua família.

03. Falso é pensar que existam armas de fogo para defesa. Instrumentos de defesa, são os trajes, como as armaduras medievais, elmos ou, os atuais capacetes e jalecos anti-balas, ou o spray de pimenta,.., os mesmos não podem ser usados para agredir. O uso de uma arma de fogo, em resposta a um ataque à bala, pode ser um ato de defesa inicial num confronto, cuja resposta é contra ofensiva. As causas iniciais num confronto, nunca modificam o poder letal das armas envolvidas.

04. As armas de fogo, ao substituirem as lanças, espadas e baionetas, exigem menos habilidade e força muscular, decisivas nos enfrentamentos corporais. Elas tem efeitos mais rápidos e efetivos do que uma arma branca. O uso destas ferramentas de morte inovaram, gerando “igualdade de oportunidades” para homens e mulheres, para jovens e …velhos cadeirantes poderem matar. Com um revólver ou pistola, não é mais necessário se aproximar do inimigo e arriscar um duelo, basta acionar o gatilho. A arma de fogo dispensa a proximidade perigosa no enfrentamento com um índio com uma bodurna, mata-se à distância. Na verdade, a desigualdade continua a mesma desde a antiguidade, entre quem tem direito de ter arma e quem não tem; entre quem tem dinheiro para comprar a arma e…quem não tem.

05. Esta ferramenta, se aperfeiçoa sempre na busca de matar mais rápido e, à maior distância. Nas guerras napoleônicas, as salvas de tiros com mosquete da infantaria, eram de 2-3 tiros por minuto, agora, um antiquado fuzil metralhadora AK-47, efetua rajadas de 600 tiros por minuto; Da artilharia Napoleônica com alcance uns 1500 metros, até os mísseis intercontinentais ou para derrubar satélites atuais, muito evoluímos em nossa capacidade de matar, de destruir ao longe. Da arma de fogo clássica, para outras tecnologias de morte em massa, como a nuclear, não paramos de desenvolver ferramentas de crescente poder de morte.

2. AS ARMAS , PARA DAR LUCRO, PRECISAM DE MARKETING PERMANENTE:

06. As armas, pelo seu custo e superioridade que dão, não são para todos. Assim, espadas, escudos, lanças, armaduras, eram restritas aos poderosos. Isto vai gerar uma estética das imagens, pinturas, esculturas, representações teatrais, etc…, onde as armas estão presentes e, ficaram materializadas pela heráldica, nos brazões e distintivos.

07. Desde a infância, usamos armas de brinquedo para “imitar” a vida adulta. Espadas, revólveres, pistolas de água, video-jogos de matar em duelos, de comandar aviões de combate, tanques, batalhas navais, etc.., são os costumes familiares de brincar para ensinar à matar ou, aceitar as mortes vioolentas. Mas isto, não são jogos, que rendem dinheiro para os fabricantes de brinquedos infantis. Os adultos também gastam para brincar. A indústria e comércio de réplicas de metal, perfeitas em quase tudo, menos em disparar uma bala real se amplia. Os jogos de guerra, com suas realistas armas de airsoft ou paintball, se popularizam. Agora podemos nos mesmos realmente ter a sensação de uma arma e matar com tinta quem alvejamos ou…sermos eliminados, sem perder sangue. Agora, quem pode pagar, brinca de matar e morrer, com mais realismo que crianças com as antigas pistolinhas de plástico ou video-games de guerra.

Foto: disponível em: https://gmconline.com.br/esportes/outros-esportes/airsoft-conheca-o-esporte-que-simula-operacoes-militares-e-policiais/

08.No cotidiano do cinema, as armas estão presentes. Assistir de nosso sofá, os artistas ferindo, sangrando, gemendo, matando e morrendo por tiros, é parte do lazer diário de muitas famílias. As armas chamam a atenção, são “assessórios” convincentes dos artistas e das narrativas. Ninguém fala delas, elas se bastam, complementam personagens, ocupam grandes espaços na tela.

09. O uso das armas nos cinemas, também gera momentos de beleza estética que reconhecemos. Lembram do série de filmes de Sérgio Leone, imortalizada não tanto pelo enredo, quanto pelo fundo musical de Ênio Morricone? recordam a trilogia: “Por um punhado de dólares” (1964), “Três Homens em conflito” (1966) e “Era uma vez no Oeste” (1968)? Ou, o genial retrato dos horrores da guerra em 1965, com Robin Williams em “Bom Dia Vietname” (1987), ao usar a música de Armostrong “What a wonderful world” no seu programa de rádio?

10. A presença do uso das armas de fogo, ao conquistarem as telas e o nosso lazer, legitimam a cultura de violência em que estamos imersos. As armas, estas ferramentas para matar, são usadas para vender superioridade, e também, como complemento para embelezar. Se antigamente matar com armas nos filmes, era um ato masculino, agora não mais se discrimina, mulheres belas, empunham armas com desenvoltura igualmente mortais. Desta forma, o que o cinema “ensina”, é que as armas são bonitas, necessárias e… para uso de todos.

Cartaz do novo filme do personagem 007.

11. Se não são suficientes os permanentes exemplos do uso das armas pela mídia, os mesmos devem ser reforçados com a demonstração real dos fatos cotidianos. Uma característica do noticiário diário, é a demonstração da violência. Para a mídia que busca lucro, o acompanhamento das atividades policiais e seus relatórios, são uma fonte barata para tocar seu negócio. O efeito conhecido disto, é a construção do medo. A indústria do medo, que vemos no noticiário policial, emitindo juízos de valor, muitas vezes com pré-julgamentos e “pré-condenações”, é tão cotidiana e de forte impacto, que estes apresentadores podem ser transferidos para carreiras políticas e influenciarem legisladores as “bancadas da bala”, dos falcões armamentistas, os lobistas da indústria armamentista.

12. A indústria do medo funciona mostrando as excepcionalidades, como sendo o…comum. De fato, a violência no Brasil existe, ela é o sinal de nossa triste, mortal e peculiar Guerra Civil bem identificada por Luiz Mir ainda em 2004; Sabemos que os argumentos usados pela mídia trabalham com os efeitos visíveis, sem aprofundar causas e efeitos e pouco noticiar, sobre a resolubilidade dos crimes.

13. De modo geral, o que se divulga, aberta ou veladamente, são os argumentos da solução armamentista para os civis. Arriscamos uma síntese, inspirados em Antônio Rangel Bandeira (2019), do Atlas da Violência 2021:

ARGUMENTOS “SINGELOS”, PARA NÃO DIZER INGÊNUOS

A LÓGICA E OS FATOS:
Ter uma arma é um direito de exercer a liberdade; O cidadão tem que ter o direito à liberdade de poder andar armado.O ser humano vive em relações sociais, é um ser social. A liberdade individual existe em relação aos demais, ela é pautada, limitada pelos consensos de saúde e segurança comunitária. A posse individual de arma de fogo, aumenta o risco de vitimização de familiares, vizinhos e da comunidade, é geradora de ameaças potenciais ou reais,etc.., por isto é limitada.
No Brasil, “O Estatuto do desarmamento” reduziu a proteção do cidadão; “A lei desarma os homens de bem e deixa os bandidos armados”Simplifica a vida social num imaginário confronto, entre os “homens bons” e os “homens maus”; Elimina as funções da segurança publica? Ignora os números das mortes que ocorrem, pela existência de arma de fogo na na residência. O Referendo de 2006 sobre armamentos, manteve o direito a comprar armas.
As armas de fogo trazem proteção; As armas de fogo protegem o lar; Precisamos nos auto-proteger pois a polícia não está em toda parteOs estudos indicam que o atacante tem mais superioridade (surpresa, ocasião, local,..). Os fatos da vantagem do atacante, geram o aconselhamento de “não resistir” a uma ameaça armada, pois as possibilidades de sucesso são menores para o defensor. Mais armas de fogo com os cidadãos não reduz os homicídios e lesões. Sociedades “desarmadas”, tem menos violência mortal.
As armas ilegais são o maior problema; Não é com arma legalizada que se cometem homicídios; Bandido não compra arma em loja, etc…As mortes por arma de fogo, são realizadas por armas que inicialmente foram legais e, foram roubadas ou “extraviadas”, passando para atividade criminal. A CPI sobre armamentos da ALERJ, só no Rio de Janeiro, entre 2005-2015 elencou 18 mil armas de fogo roubadas ou extraviadas, apenas das empresas privadas de segurança,…

14. Não esquecer o argumento… simplório, de que as guerras são um mal necessário para gerarem avanços para a ciência. Isto só esconde que o poder do lucro usa o saber para… lucrar mais. Que o saber científico é desvirtuado dos fins humanos para sangrentos fins privados; é negar, que o avanço do conhecimento deve se pautar pela ética do compromisso com bem estar e a vida e não, com o poder de matar.

15. As armas, devem ser compradas para darem lucro. Elas matam como um tacape, um machado, uma lança mas, as armas de fogo e os armamentos modernos para atenderem as suas finalidades, precisam de munição, de abastecimento de peças de reposição, etc… Não adianta a metralhadora…sem as balas, assim como não adianta o computador…sem as impressoras e o cartucho de tinta. Se o tacape dava autonomia de uso como a máquina de escrever manual, agora, a metralhadora é diferente. Se lucra vendendo o revolver 38 mas, se lucra mais vendendo a bala calibre 38 sem a qual ele não funciona. Estimando, pelo mercado livre que seja R$10,00 cada cartucho, para o 38 funcionar, pode-se calcular quanto irá custar, apenas ficar dando tiros “ao alvo” numas latinhas, garrafas ou, numa silhueta de inimigo?

16. Mas para vender armas e suas munições tens que criar, exemplificar, quase materializar o medo, de um inimigo. O inimigo ou…inimigos, são cultivados pelo marketing, pela mídia, pelos “lobistas ingênuos” pois os lobistas verdadeiros ficam na sombra. O inimigo é o diferente, o estranho, o de outra cor, de outra língua, com outro sotaque, pode ser distante ou viver próximo. O inimigo é o país vizinho ou distante, é uma construção essencial, pode ser uma ameaça às nossas fronteiras, assim como a nossa casa. O medo do inimigo alimenta o grande negócio. Desde comprar pistolas glock austríaca (ofuscado pelo fetiche da marca), que matam da mesma forma que as taurus nacionais, até os 36 caças gripen, que compramos da Suécia no contrato de 4,5 bilhões de US$. etc…

17. Agora, os Emirados Árabes Unidos compraram 80 caças Dassaut Rafale e 12 helicópteros da França, uma bagatela de 19 bilhões de dólares gringos. A Nigéria comprou 12 supertucanos, para lutar contra os rebeldes de Biafra, onde tem petróleo, por mais de 426 milhões de dólares.

18. O negócio da morte é muito lucrativo. Tanto no cotidiano dos treinamentos, tiroteios, “balas perdidas”, etc… mas ninguém fala dos custos reais. Imagine um entrevero de uns 15 minutos com metralhadoras cuspindo destruição e morte, com 600 balas por minuto? Quanto custa?. Mas, para o mercador da morte, lucrativo mesmo são os contratos de guerras, com a garantia de combates com a destruição de tanques, caças, drones, fábricas, cidades, etc.. Quanto mais equipamento e instalações forem destruídos, mais terá que ser fabricado, mais inovação necessita, mais armas e munições para repor. Se os jovens soldados mortos emocionaram as famílias e geraram problemas de protestos, como na guerra do Vietname, se contrata serviços para mercenários ou, se fabricam soldados robots, aviões sem pilotos (drones), cães robots de combate, com preços altos. Tudo para a segurança de todos,…para se defender do inimigo.

Sem janelinhas afinal não existem humanos, somente a máquina.
Pois não é o cão o melhor amigo do homem? …então vamos para a luta.

19. Viver num mundo de medo, alimenta a indústria da morte e desvia quantias fabulosas que poderiam construir escolas, hospitais, habitações, redes de esgoto e água, UTIs recuperação de áreas degradadas, investigação para curar doenças, trens elétricos, etc… Todos sabem disto, fácil é fazer as contas. A contabilidade pública nacional e internacional sabe, que os gastos armamentistas, comparados com saúde e educação, são injustificáveis, tolhem as possibilidades de desenvolvimento humano.

3.O ESTADO É O REGULADOR:

20. O Estado, tem o monopólio do uso da força. Só o Estado é quem oficializa o estado de guerra entre nações ou, o estado de sítio interno. Em períodos de paz, o cidadão tem restrições de usar a força, proibição de matar, se o fizer, será preso e julgado pelo Estado; Mas nas guerras, muitas sem que o cidadão entenda o propósito real do conflito, ele é obrigado, para cumprir a lei, de matar. Na guerra o cidadão não tem escolha, não é um “agente OO7” que tem autorização para escolher a conveniência e oportunidade de atirar, o soldado é convocado, alistado e treinado no uso de ferramentas diversas, para obedecer ordens. A lógica é simples, deve matar mais que o inimigo para vencer ou…pode morrer. Se matar bem, será premiado, lembrado, poderá se transformar em herói. Caso se negue a matar e deserte, será punido, podendo ser preso, degradado ou fuzilado. por seus colegas.

21. O Estado, em sua função de defesa da vida e do patrimônio da população do seu território, proíbe a posse de armas de fogo para a cidadania, com pequenas exceções para a caça. Quando não consegue desempenhar a função essencial de sua razão de ser (segurança pública), tem que tolerar, permitir a posse de armas para os civis, regulamentando-a para … “uso defensivo”. Se admite que o possuidor de uma arma pode sair por aí dando balaços, voltamos a barbárie, reconheceria sua incapacidade em dar segurança para a sociedade.

22. Aqui, na legislação de uso de armas, temos um conhecido mensurador de desenvolvimento social. Podemos ter uma escala comparativa, desde uma sociedade em que o policiamento ostensivo seja feito sem armas de fogo e que seja proibido à toda cidadania ter armas, até outro extremo, em que a polícia ande pelas ruas com armas de guerra e muitos tenham direito “a portar armas de fogo” (discreta ou ostensivamente) nas ruas, além de terem seus pequenos arsenais em casa. Podemos restringir armas à caça e alguns esportes, controlando seu uso e guarda em cofres, contando os cartuchos deflagrados para autorizar nova compra de munição, até o liberal geral, etc…

Polícia Militar no Rio de Janeiro/Brasil. Foto: Tânia Rego- Agência Brasil. Agenciabrasil.ebc.com.br
GARDA polícia Irlandesa, que trabalha desarmada, ganha a população pelo tratamento diferenciado. Assim como a Irlanda, Islandia, Noruega e Nova Zelândia os polícias também trabalham desarmados.

23. A função ostensiva e preventiva da segurança pública, difere segundo a formação sócio-histórica de cada nação e, é alterada dependendo de sua dinâmica interna de conflitos. Em algumas, o policiamento é para proteger, em outras mais para atemorizar, a distinção entre a função policial e a militar é clara, em outros até o Exército é usado para “combate do crime urbano”, como já tentamos sem sucesso nas favelas do Rio.

24. Para nos situarmos, vejamos um panorama mundial de homicídios intencionais do relatório do UNODC (Oficina de las Naciones Unidas contra la droga y el delito), onde a taxa (por 100 mil habitantes) mundial atingia a 6,1 homicídio em 2017:

25. Temos uma classificação geral, de países que proíbem ou quase impossibilitam a propriedade civil de armas de fogo, por diferentes níveis de restrições, até o outro extremo, dos países que permitem, facilitam a posse e uso civil das armas de fogo. Nos primeiros países, de proibição ao armamento civil, o policiamento ostensivo desarmado está institucionalizado, como a Inglaterra desde o Séc. XIX; Nos mesmos se incluem, além da Inglaterra, a Islândia, Noruega, Nova Zelândia, Japão e Coréia do Sul. Os estudos indicam que ter uma polícia desarmada, gera mais confiança e…menos mortalidade. No outro extremo, temos os EUA, com sua mortal permissividade para a compra e uso de armas.

26. A maior indústria de todos os tipos de armamentos do mundo, está nos EUA. Estudar suas estatísticas, reações e comportamentos, fascinam pelo contraste entre estudos científicos e…loucas alucinações. A BBC News ontem publicou a mensagem natalina de Thomas Massie, do partido Republicano do Kentucky no twiter a foto familiar com os dizeres: “Merry Christmas p. Santa, please bring amno” (Feliz Natal, Papai Noel traga munição), todos sorrindo armados com seus rifles. O Natal está sendo reinventado nesta cultura militarista, de uma data religiosa, familiar para a paz, serve agora para pedir munição de presente.

Foto: BBC NEWS – Thomas Massie’s photo was posted on Twitter a fez days alter a Michigan School shooting loft Foursquare student’s dead.

27. Os dados falam por sí. Se tomarmos a taxa de homicídios intencional (calculada por cem mil habitantes) em 2019, vemos que os países que proíbem ou limitam drásticamente as armas de fogo para os civis, tem baixas taxas de homicídio. Assim, o Reino Unido, que é o mais alto, teve taxa de homicídios de 1,19, e outros mais baixos, como Noruega (0,56), Nova Zelândia (0,56), Japão (0,25), China (0,53) e, para não nos alongarmos, a Islândia.. zero (nenhum homicídio). Por outro lado, os EUA, com quase 50 mortes intencionais por dia, teve uma taxa de 4,99 e o Brasil, de 23,6, embora sejam anos diferentes, estamos acima da taxa mundial de 6,1 citada pelo UNODC para o planeta e de 17,2 para as Américas. No Brasil, desde 2009, morrem por armas de fogo, 4,5 pessoas por hora. Vejamos alguns dados de nossa realidade:

28. Os dados de uma década de “guerra civil alucinante e escondida” no Brasil, em que nos matamos com muita facilidade, os jovens foram alvo fácil, assim como as mulheres:

4. LUCRAR COM ARMAS É O OBJETIVO, OS CUSTOS MORTAIS… SÃO DA SOCIEDADE:

29. As mortes por diferentes meios e instrumentos, que ocasionamos entre nós, nos encontros e desencontros, na vida familiares e social, são fatos que sempre ocorreram, por motivos passionais até os econômicos. Aumentam nos momentos de crises sociais e de valores, e, tem taxas diferentes, dependendo de como a vida á valorizada em cada cultura social. No nosso mundo, a banalização da morte violenta faz parte do cotidiano, não horroriza, e isto é um poderoso caldo cultural inconsciente que estamos imersos, resultando na manutenção das estatísticas de homicídios.

30. Existe um consenso universal, que matar com violência é considerado uma anormalidade, um ato anti-social que fere à todos. Por isto a agressão e o seu nível mais alto, o crime de morte, sempre é punida pelos costumes ancestrais, como o velho código de Hamurabi (1.700 a.Cristo) e, pelas leis e instituições atuais. As religiões concordam que é direito privativo de Deus, dar e tirar a vida, daí vincularem o homicídio à punições religiosas “infernais”… No entanto agora, raras são as prédicas, os sermões, de lideres religiosos, contra os mercadores de armas.

31. Se ocorrem mortes, mutilações, ferimentos, sofrimentos, psicoses, se os pecados ocorrem, se existe a possibilidade de ir para o cárcere ou…para o inferno, isto é ignorado para o produtor de ferramentas de morte. Quem fabrica armas, quer vender e lucrar com a sua mercadoria, a arma. Esta é a razão pela qual os fabricantes de armas, são chamados de mercadores da morte. As indústrias de armas mortais, tem seus acionistas, recebem apôio do capital financeiro, subídios de governos, etc… As questões éticas, de legislação, de custos sociais para o atendimento de emergências por tiro nos hospitais, custos de investigação, de manter a população prisional, etc… não interessam, não devem ser citados. Desnudar os sofrimentos e custos “exteriores” desta mercadoria (a arma), é sempre prejudicial para o negócio.

32. Assim, difundir que precisam de mais armas no policiamento, que tem que modernizar as armas do exército, que as empresas privadas de segurança precisam de armas e, principalmente, que todos devem se armar contra todos, são as mensagens que interessam para o alcance do lucro.

33. No Brasil, o mercado de compras de armas aumentou. Vamos exemplificar com a segurança pública. Como não temos uma polícia nacional, vejamos portanto os nossos policiais armados, são os que se classificam em policiais militares e civis, a polícia federal e rodoviária. Esta quantidade, de funcionários públicos, é parte do mercado de armas nas licitações de compras. No entanto, este mercado aumentou muito, foi autorizada as guardas municipais (que eram patrimoniais) a portarem armas, as empresas de segurança privada se armaram, os guardas penitenciários se armam, e, até os bombeiros adquiriram o direito a comprar armas de fogo. Em muitas destas instituições, além do armamento propriedade da corporação, o funcionário pode ser proprietário de sua arma de fogo.

34. As estatísticas sobre a quantidade de armamentos registradas no Brasil continua sendo “aperfeiçoada” ou seja,,,são estimativas com grandes margens de êrro. Estão piores do que os registros de CPF. Antes do Estatuto do desarmamento (Lei 10.826/2003), recordo que foi Arthur Bernardes, ainda na República Velha, o primeiro a propor a proibição total de armas para os civis, ficando as mesmas restritas às polícias e o Exército, não convenceu o Congresso Nacional. Portar arma na rua, para maiores de idade, era legal e as armas eram registradas nas Delegacias da Polícia Civil Estaduais. Se estima que haviam quase 9 milhões de armas registradas em mãos de civis. O Estatuto concentrou o registro na Polícia Federal e Exército e… até hoje estamos…”onde estamos..” Se antes era mais acessível ir até uma Delegacia Civil Estadual no município agora, a “rede de Delegacias Federais”, é menor, . Se os arquivos das polícias estaduais, nunca foram digitalizados para os banco de dados federais, os dados “se perderam”, nunca mais fecharam mesmo com anistias para legalizar armas. pois, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a Polícia Federal tinha no SINARM em 2020, apenas 919.650 armas registradas e o Exército (SIGMA) tinha 1.157.476. Portanto “desapareceram” umas 6 milhões de armas?

35. Sem o atual Anuário de Segurança Pública, estaríamos mais perdidos. No mesmo, tem dados curiosos: i. as armas dos caçadores de subsistência, são apenas 5.575 mas, dos “caçadores esportivos”, que ficam na mesma categoria de atiradores e colecionadores, chegam a 561.331, isto num país, em que a caça é proibida; ii. Constam registros de um “arsenal” de 259.963 armas das empresas privadas de segurança, a nossa “terceirização” da defesa do patrimônio e vida… de quem pode pagar; iii. O direito a ter amra pessoal, foi extendido até os responsáveis por apagar fogos, os bombeiros, tem 25.649 …armas de fogo registradas individualmente. O esforço de ter dados desta fonte que citamos, é essencial e conhecido para diminuir o “buraco negro” da falta de informações sobre armas letais. Mas, as armas das Polícias Militares e Civis, não constam destes registros, nem as armas portáteis de guerra (pistolas, metralhadoras,..) do Exército, Marinha e Aeronáutica.

36. As armas retiradas de circulação, existem nos depósitos dos Foruns, nas policias civis, etc… mas, não existem registros confiáveis destas quantidades. Este crescente arsenal aprisionado e pulverizado em diversos locais do território (Foruns..), podem alimentar o mercado interno de armas ilegais. Devemos ressaltar, que em 2020 foram apreendidas 111.378 armas de fogo no Brasil e o Exército destruiu 63.366. O estudo de Félix (2013), com dados de SP entre 2009 e 2012, relacionando a retirada de armas de circulação e a diminuição do potencial de mortes, é interessante sobre este tema…quase óbvio pela lógica.

5. AS ARMAS NÃO SÃO UM MEIO PARA A PAZ:

37.Nossas estatísticas de mortes violentas, em certas cidades, são de guerra. Pesquisas até entre os policiais, demonstram que muitos não acreditam que a liberação de armamento para civis diminua a violência. E eles são importantes de serem ouvidos pelas suas responsabilidades cotidianas.

38.Tudo indica que as proposições da CPI DAS ARMAS (2015) da ALERJ, continuam sendo um valioso subsídio, infelizmente ignorado, como o uso de chips nas armas.

39. Aumentar a venda de armas e suas munições e “assessórios”, tanto da burocracia, quanto de treinamentos, locais, indumentárias e adereços, é de interesse de quem lucra com isto. Os riscos e perdas ficam para o policial que se arrisca, para os Prontos Socorros e pessoal das ambulâncias, para os hospitais, para a dor das famílias, para todos nós, PARA A SOCIEDADE.

40. Aceitar a simples alternativa armamentista, para a construção de um ambiente saudável de segurança pública, é negar a nossa capacidade de construirmos um mundo melhor.

6. ALGUMA AUTOAJUDA, QUE DIMINUIRAM MINHAS DÚVIDAS : MIR, Luiz. Guerra Civil: Estado e Trauma. S.Paulo: Geração Editorial, 2004, 960p.; Eu considero esta pesquisa, que do “estado de guerra” dos hospitais cariocas narra a violência armada no Rio de Janeiro, a obra inicial do que chama de “guerra civil”, destrutiva, sem direção, que vivem as grandes cidades brasileiras; MANSO, Bruno Paes & DIAS, Camila Nunce. A guerra (a ascenção do PCC e o mundo do crime no Brasil). S.Paulo: Ed. Todavia, 2018, 342p. (ótimo pela metodologia, dados e análises); KUCINSKI, Bernardo et al. Bala perdida: a violência policial no Brasil e o desafio para a sua superação. S.Paulo: Boitempo, 2015, 125p.; CERQUEIRA, Daniel et al. ATLAS DA VIOLÊNCIA. S.Paulo: FBSP, IPEA, IJSN, 2021, 128p; IPEA. MENOS ARMAS MENOS CRIMES. Brasília, IPEA (textos para discussão 1721), 2012, 58p.; ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA 2021. S.Paulo: Forum Brasileiro de Segurança Pública, ano 15, 2021, 380p [Ver o texto de Tulio Kahn “As polícias e as armas” (pp. 304-308) uma síntese da pesquisa sobre a opinião dos policiais sobre o tema]; ESTUDIO MUNDIAL SOBRE EL HOMICIDIO (resumen ejecutivo). Viena, UNODC (Oficina de las Naciones Unidas contra la droga y el delito), 2021, 45p.; BANDEIRA, Antônio Rangel. Armas para quê? O uso de armas de fogo por civis no Brasil e no mundo e o que isto tem a ver com a segurança pública e privada. S.Paulo Ed. Leya, 2019, 416p.; FÉLIX, Sueli Andrucciolly. Armas X Vida: análise de regressão sobre o impacto da apreensão de armas nos homicídios. Marília: Revista do Laboratório de Estudos da Violência, UNESP-Marília, vol 14, 2014; Atenção para o Relatório Final da CPI DAS ARMAS da ALERJ, resultado da resolução 124/2015, presidida pelo Dep. Celso Minc, relator Dep. Luiz Martins e a participação de outros, como o Dep. Flávio Bolsonaro. Para uma visão mundial das armas de guerra, conflitos, etc… a fonte mais confiável e detalhada é a do SIPRI, vejam: SIPRI, yearbook 2020 (Armaments, Disarmaments and international security). (consultei o “resumen en español”). Solna Sweden, 2021, 28p.;

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