CONSUMIR É A RAZÃO DE EXISTIR?

CONTEÚDO: 1. Intróito; 2. Sintetizando…o que sabemos 3. Qual a tendência? 4. Compartilhando leituras;

  1. INTRÓITO (sem acompanhamento de orquestra):

01. A resposta à pergunta do título, é SIM. Em nossa sociedade, nas suas relações sociais, econômicas, políticas e, especial na cultura em que estamos imersos, vivemos para consumir. Pois sem perceber, acreditamos que a “felicidade” individual, será alcançada… consumindo.

2. SINTETIZANDO O CONHECIDO:

02.A valoração social das pessoas, é medida pela sua maior ou menor capacidade de consumir bens e serviços. Em nossa cultura, se desinforma sobre as diferenças entre consumir o essencial para viver saudável, e consumir o supérfluo; isto tem que ser ignorado, para facilitar mais consumo. Gastar muito em supérfluo ou sucedâneos caros, significa mais alto status social, carregado de valorações vinculantes com o alcance da felicidade para os consumidores.

03. Vivemos numa sociedade estruturada para induzir o consumo. Somos seres humanos mas, caricaturas de cidadãos, pois somos de fato considerados consumidores; Prova disto é a supremacia do número do CPF (um registro fiscal), que se transformou em CARTEIRA DE IDENTIDADE para todos. A prioridade fiscal, identificadora do consumidor sobrepuja as nossas identidades cidadãs, pois ignora-se os numero de seu título de eleitor ou do SUS. Estamos imersos nesta cultura “imperceptível”, necessária para influenciar, determinar e retroalimentar, os valores que norteiam as nossas decisões, numa sociedade de… consumo.

04. O leitor sabe, que todas sociedades sempre consumiram o que produziam, para atender suas necessidades. Isto é um fato, mas vivemos uma etapa destrutiva com a cultura do consumo. Na verdade, caro leitor, vivemos onde? Numa cultura de desperdício, onde vemos o exponencial crescimento do desgaste dos recursos naturais, do tempo de vida social e, a continuidade da insatisfação por não atendermos necessidades.

05. É necessário lembrar o óbvio? que não existe consumo sem prévia produção? Não, isto é sabido por todos. Nenhum objeto, nenhum serviço, nenhuma poesia, nenhuma música ou pintura, nenhuma narrativa religiosa ou política, pode ser usufruída, consumida, sem antes ter sido construída. No entanto, no nosso cotidiano, elas existem não pela essência de sua finalidade, atender necessidades vitais de uso mas, sim, como mercadorias para serem… consumidas.

” O império do consumo: esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

Pragmatismopolitico.com.br leia o texto no endereço: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/04/eduardo-galeano-ditadura-do-consumo.html

Eduardo Galeano*

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran (tela) do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinqüindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios (trens), que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.”

*Eduardo Galeano, falecido neste abril de 2015, foi considerado um dos principais escritores e pensadores políticos da América Latina do último século. O uruguaio escreveu mais de 40 livros, lembram “As veias abertas da América Latina”? Esta transcrição é nossa humilde homenagem póstuma ao escritor. O texto original está no site: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/04/eduardo-galeano-ditadura-do-consumo.htmlPragmatismo Político publicou outros textos de Galeano ou relacionados ao escritor aqui.

06. Todos temos que consumir… para sobreviver. Pois pelo consumo das mercadorias, quer sejam objetos ou serviços, quer sejam vitais para manter ou reproduzir a vida ou, supérfluas, suntuárias, quer sejam objetos ou momentos de fantasias, se as mesmas não são consumidas (compradas), não permitem a realização do valor, o alcance do lucro, a base sobre a qual se alicerça a economia de mercado de nossa sociedade.

07. Nossas necessidades, principalmente as biológicas (água, alimento, roupa, abrigo, saúde), nos afirmam como da mesma espécie e, seu acesso diferenciado, nos tornam distintos socialmente. No entanto, no alcance das necessidades culturais comuns (educação, cultura, lazer), é onde começam as desigualdades onde as nossas diferenciações são mais visíveis e se afirmam. As necessidades são atendidas por objetos ou serviços, por isto, eles valem primordialmente pelo uso a que se destinam. No entanto, quando os objetos e serviços são trocados (mercadorias), a essência do valor de uso fica escondida pelo valor de troca mercadológica. Na nossa sociedade, a essência de consumir para atender as necessidades humanas (reais, vitais ou supérfluas), o valor de uso, está “subjugada” pelo valor de troca, o ato da venda.

08. Valores de vida centrados na satisfação do trabalho, na criatividade, frugalidade, capacidade de poupar para eventualidades, não devem ser lembrados e valorizados na sociedade de consumo. Afinal, um indivíduo que pauta seu comportamento pelos mesmos, sabe o que é essencial para viver bem e consome pouco; É conhecedor de que não precisa de trocar de guarda-roupa em cada “estação”, se houver ciclovias opta pela bicicleta, se precisar de carro não troca o mesmo a cada ano, sua existência, seu modo de vida, é uma ameaça ao aumento das vendas, necessárias para o lucro das empresas. Porém, a cultura, do consumo, com agressiva propaganda para que todos comprem mais, nos esconde a tragédia cotidiana, a contradição entre capacidade tecnológica de produzir mais com menos custo e empregos; a realidade de crescente capacidade de ofertar… mais mercadorias para um mundo de crescente desemprego, sem renda para…comprar. A equação de “equilíbrio falso” entre a oferta e a demanda, nunca fecha. Mais excluídos, significa menos renda para comprar o que é produzido, a tendência do encalhe das sobras, da oferta abundante no meio da pobreza crescente, é um fato que desafia a imaginação dos marqueteiros cotidianamente …”resolver”, esconder para manter as ilusões de consumidores e…o lucro.

09. A liberdade de consumir, é uma falsa mensagem em nossa sociedade. Os desempregados, os pobres, estão excluídos, não tem liberdade de consumir o essencial; imagine os supérfluos que são trombeteados pela mídia? A estes, os excluídos, restam as alternativas que vivemos no nosso cotidiano, de migrarem buscando sobreviver, de roubarem, pagarem por sonhos usando drogas ilícitas ou lícitas, buscarem ajuda de divindades, continuarem lutando, buscando trabalho, trabalhando de bicos, raspando latas de lixo, se prostituindo, etc… A sua “incapacidade” de participarem do falso paraíso do consumismo, não é da falha do sistema econômico, deve ser transferida , insinuada, que é dos indivíduos que… fracassaram. Nesta cultura, surgem novos termos valorativos, como “vitoriosos”, “guerreiros”, “empreendedores”…, para os que tem algum acesso ao consumo, para indicar que os demais que não podem consumir, são os “derrotados”, “os débeis”, “sem iniciativa”. A cultura do consumismo, também sabe usar as sementes do ódio.

10. Os que podem consumir, na ditadura da moda, modismos segmentados por faixas etárias, por sexo, estações do ano, datas festivas, regiões e… renda. Todos devem pensar que tem liberdade de escolher nas vitrines, prateleiras, lojas virtuais os objetos já decididos pelos pesquisadores dos fabricantes (mercadologia); mas, a única liberdade, é a de comprar o que foi produzido, sobre o mesmo é que exercerás tua escolha. Como sabem os do marketing, o comprador não sabe o que quer, nós fabricamos seus desejos., motivando suas emoções. O leitor já comprou à crédito? O leitor sabe que vivemos numa economia de zombies? de pessoas que venderam o tempo futuro de suas vidas para… gastar no presente?

11. Mas, o importante é criar hábitos de compras, de laços com a marca. Se trata de materializar a venda, desde a ilusão da “liberdade de escolha” do presente, muitas vezes necessidades falsamente induzidas, até a escravidão das dívidas futuras, no crédito ao consumidor, cartões de crédito da loja, carnets, dos bancos, , etc..; Sabemos que no impulso para comprar o “novo lançamento”, não é apenas pelas mudanças de formato ou cores para a mesma utilidade, mas também do uso oculto da obsolescência programada, pois quanto menos durar o produto, mais demanda de compras existirá. Devem ser mercadorias que ao serem consumidas, realizam o lucro, deixando nos consumidores alegrias fugazes, no entanto, gerando insatisfações futuras. Como elas foram “consumidas” para a economia, ou seja, ocorreu a transferência de propriedade para o consumidor, o seu uso social e seus impactos, como os ambientais, são também transferidos. Não interessam mais à empresa vendedora, se as mercadorias que não são mais dela, são as geradoras de montanhas de lixo. Como sabemos, não tem natureza, que aguente uma sociedade de consumo tipo shoping center planetário.

12. Caro leitor, lembro das compras na loja Renner em Porto Alegre, de roupas de inverno uma vez por ano; A custosa japona escolar (de feltro) tinha que durar, a mãe comprava “1 ou 2 dedos maior na manga” para acompanhar o nosso crescimento e garantir anos de uso. Lógico que, uma japona de adulto, era, para “toda vida”, como a cinza do pai; Portanto, o nosso crescimento biológico é que obrigava a mudança da roupa provocando as compras anuais na Renner. Agora, cada inverno, tem novas cores e novos estilos, induzindo ao sentimento de que “saiu da moda” e… de comprar o que está na moda, gerando desperdício.

13. Quantas roupas precisas por ano? Talvez nunca tenhas te perguntado. Quantas pessoas tem roupa para se abrigarem? Estes interrogantes, de quantos andam semi-desnudos, maltrapilhos, com frio, pouca roupa ou, tem guarda-roupas cheios, não interessam? A cultura do consumo só quer respostas de motivações para comprarmos mais. Agora, vivemos a etapa da fast fashion, segundo o World Resources Institute, já são produzidas 20 peças de roupas por pessoa no planeta, algo em torno de 140 bilhões de roupas anualmente. Sabemos que, as grandes lojas de departamentos querem lançar 54 coleções de roupas por ano. Portanto a moda “verão” ou moda “inverno”, duas por ano, deixou de seguir as estações e passou a ser… semanal, uma indução para usar a roupa e descartar, poluindo.

Lojas de departamento no seu conceito do fast fashion, se vc conhece alguma é porque já consumiu.
Tão grande quanto a loja que vende as roupas os galpões têxteis são um exemplo da desigualdade na cadeia produtiva, afinal quem fabrica o que você consome?

14. Uma das metas permanentes do consumismo, é a troca da liberdade das compras pela escravidão de comprar pela marca. As mesmas mercadorias, produzidos por diferentes empresas, se diferenciam pelas suas marcas. A finalidade das marcas, é algemar, fidelizar o consumidor, daí a criação do cartão de crédito destes lojistas. O produto não tem apenas seu valor de uso, pelo símbolo da marca tem um valor diferenciado, embora tenha a mesma função. A marca o transforma num distintivo de diferenciação e/ou de status social; quando isto é obtido, o ideal mercantil de ter uma demanda atrelada, é atingido. Consumir a mesma marca famosa, diminui o anonimato de consumidores por uma identidade, não como pessoas, mas pelo menos… de usuários, rebanhos, de uma marca “famosa”. A roupa da Renner cuja propaganda era “Renner ponto por ponto”, lembrando os alfaiates, desapareceu, agora suas roupas são feitas na Ásia ou, em qualquer lugar que seja mais barato, feitas por trabalhadores anônimos. Mas, sucumbo e compro na Renner para lembrar de minha família, portanto confesso ser meio-cativo desta marca. O leitor sabe que bebemos vinho pela sabor, raramente para matar a sede apenas. No entanto alguns bebem não pelo sabor mas pela “marca famosa”. São os que degustam influenciados pela etiqueta e não pelas suas papilas, mesmo que sintam um sabor “duvidoso, estranho” mas, se no rótulo diz que é francês, sentem que o gosto diferente… é melhor; O mesmo sucede com as roupas, eletrodomésticos, bicicletas, consumo de sanduiches como o MacDonalds, feitos de guisados de carne de segunda, veículos, etc…; Ser “fiel a sua marca”…cria a ilusão de ser diferente, importante num mundo que veio da cultura de massa, de “ser melhor”, sentimentos construídos para justificarem o consumo e, que prometem ao consumidor, ser diferente, menos infeliz.

15. A ditadura do consumismo é cotidiana. Não se consome apenas para atender a uma necessidade específica, embora isto ocorra, pois ela é a manifestação motivadora inicial. Sabemos que as necessidades são naturais, mas também geradas, estudadas, ofertadas, antecipadas. É o marketing e sua manifestação, (vivemos imersos e bombardeados por anúncios), que nos lembram o que necessitamos e, principalmente criam novos desejos, “envelhecendo” o que temos e alardeando a vantagem do novo para atender necessidades reais e criadas. Para isto as pesquisas, a psicologia, a neurociências, os meios de comunicação, a TI, são essenciais. As mídias, como o rádio, TV e via internet, existem para informar e desinformar mas, essencialmente para dar lastro áudio-visual, a cultura do consumismo. As motivações, emoções, são segmentadas, nesta cultura, sempre é dia de comprar, o que não ocorria no passado e agora, é normal. O comércio não fecha nunca, ou raramente e, as compras on-line estão acessíveis todo o tempo. Com o telefone móvil (celular), 24 horas por dia, o leitor sabe que pode escolher, pesquisar, encomendar, comparar, pagar e… se endividar. Na verdade, os meios de comunicação de massa (rádio, TV e internet com o telefone móvil), existem, são mantidos, como ferramentas para as vendas e…outros serviços. Pela comunicação de massa, com a sua ampla cobertura mundial, se reforçam as motivações de compra, se moldam as tendências e se permite, que o consumismo se acelere. Se a internet não fosse acessível pelo celular, as vendas entrariam em crise.

16. A manutenção da cultura do consumo, dominando e acelerando o tempo, ocorre conhecendo e usando as nossas emoções. Recordem as induções para consumir mais, onde a primeira vítima foi usar o simbolismo do Natal; de festa religiosa familiar, se transformou numa obrigação cultural de consumo para todos; O ato de presentear que só ocorria, em escala familiar, como nos aniversários e casamentos se universaliza no “mundo ocidental” com o Natal. Logo depois, os EUA inventam o dia das mães, e se seguiram dos pais, dos avôs, das crianças, dos namorados, etc.., segmentando e usando os homenageados para criarem a obrigação social do consumo. As soluções mercadológicas não tem barreiras, as “motivações falsas” ao consumo penetram em todos locais, recordam os “exercícios” de confraternização no trabalho? com os presentes do “amigo secreto”? Logo teremos o “dia dos pets” para alegria das casas de venda de rações e acessórios. E, quando o “calendário de vendas” parece combalido, surge, com bombos e fanfarras, leia-se “noticiário midiático”, a blackfriday dia da liquidação nos EUA que, se espalha pelos nossos pagos e rincões. Este dia de grandes descontos por todos os lojistas, antes do final do ano, desata uma fúria de demanda, que atesta que as satisfações das necessidades Insufladas pela mídia, só podem ser limitadas pela renda ou incapacidade de endividamento dos consumidores. O consumo nestas “datas programadas de descontos”, permitem o desencalhe de mercadorias, criando espaço para as novas; são momentos que mobilizam necessidades, paixões e também, sentimentos de culpa; A ameaça de ” se não compras algo para presentear, demonstras.. que não amas”, o uso mercantil de emoções, que é parte da cultura do consumo. Se não “aproveitaste” a liquidação, também podes “sentir culpa”, pois “perdeste a oportunidade”, não foste esperto e, ser esperto em compras é muito bem valorizado. Quando sentimos “culpa” por não consumir, estamos numa cultura doente. Assim, os nossos sentimentos são mediatizados pelas mercadorias, pelo consumismo. Quanto mais caro o presente, maior o amor? E, se amamos muito mas não podemos comprar um presente? Não confiamos nos nossos gestos e palavras para expressar nosso sentimentos? Consumir passa a ser, uma medida de valor dos relacionamentos e da felicidade, ele passa a ser a medida e razão da existência, por isto afirmamos, que estarmos vivendo uma… doente cultura de consumo.

A felicidade é uma gigantesca caixa de papelão, e para conseguir porque não lutar por isso? Foto: Sebastião Moreira/EFE. Consumidores disputam TVs em promoção durante Black Friday, Estadão – 13/NOV/2019.

16. Consumir, é apenas um ato humano e, como ato humano, movido por necessidades, está carregado de paixões, tristezas e alegrias. Vejamos, exemplos cotidianos: Nada se compara a elaborar, conviver e consumir uma boa refeição com amigos, com a família, com a pessoa amada; Este é um fato que não se compra no mercado, ele é construído na agrupação familiar e seu entorno e, embora tenha mercadorias de uso (panelas, fogão, pratos) e de consumo (os ingredientes, o vinho), não tem valor de troca só de uso, ele vale pela alegria da convivência e do momento; A menina, que caminha até a escola e arrebenta a tira do seu velho chinelo havaiana, sente alegria quando ganha um novo; O aprendiz que recebe seu primeiro salário, sente alegria quando compra um tênis novo; O moto boy que poupa e consegue comprar uma jaqueta de couro para enfrentar o frio, sente alegria; O pai que consegue comprar leite para o filho, sente satisfação de ver ele mamando, etc… O ruim o trágico, é a negação do consumo do essencial, é alardear supérfluos e/ou endividar pessoas para terem acesso aos mesmos. O trágico, é a perda de ética. social e serem alardeados valores falsos.

3. QUAL A TENDÊNCIA?

17. Todos sabem, que a cultura do consumo, é excludente. A fabricação em massa, começada pelos EUA antes da II Guerra Mundial, é onde se origina o atual consumismo. Ali, as grandes lojas, a propaganda, o marketing, o uso dos meios de comunicação (rádio e depois TV), o crédito direto ao consumidor, gestaram esta característica de provocar mais consumo, para manter e expandir os lucros da economia. Porém, a produção em “massa”, em grandes quantidades, devia ser apresentada como para todos, os mesmos produtos, homogêneos como o primeiro automóvel do Ford, deviam ser para todos, embora sempre existissem o que estavam fora desta “totalidade”. Agora, os mercados estão segmentados, com as novas tecnologias produtivas, o fordismo foi abandonado. Porém, se o mercado de “massas” atingiu a massas mas manteve exclusões, o segmentado aprofunda diferenciações, mais marginalização.

18. Ao ser excludente, a cultura do consumismo provoca desespero… nos excluídos e medo de serem roubados… nos que podem consumir algo acima do básico. Não existe ainda uma forte “contra-cultura” consumista, embora ela já seja uma tendência persistente baseada em estudos, certezas resultados práticos isolados (consumo responsável, bom viver, crescimento zero, etc…), Não se amplia mais, pois a mídia está à serviço do consumo permanente, em especial do suntuário. Os excluídos, alimentam as prisões, o consumo de auto-ajudas diversas, as religiões, as migrações, remédios receitados contra depressão e ansiedade, o alcoolismo, e as drogas naturais e sintéticas; Os excluídos que alimentam o “crime organizado”, alimentam a poderosa indústria do medo, um lucrativo ramo empresarial, com filmes, notícias sanguinolentas, câmeras de vigilância, satélites, etc.., resultando em novos comportamentos, novas cidades, condomínios fechados, shoppings fortalezas do consumo e, o lucrativo comércio legal e ilegal de armas.

19. As contradições, tanto da exclusão social maior, pois a cada aumento da capacidade de produção e de diversificação de oferta para consumo, menos trabalho é gerado, continuam. A isto, se agrega a impossibilidade do planeta de suportar a demanda energética, de matérias primas e o desperdício do consumismo, sem atender as necessidades básicas da humanidade. Estes temas, estão no centro das tensões que se arrastam e se agravam. Não adiantam algoritmos para induzir mais consumo, nem ingenuidades de apenas reaproveitar o lixo se, as necessidades humanas essenciais não forem satisfeitas e as bases do planeta continuarem sendo erodidas. Caro leitor, a RAZÃO DE EXISTIR, não pode ser apenas consumir. Podemos mudar a tendência destrutiva. Nossa razão de ser, pode ser viver bem com nosso entorno social, familiar e ambiental e, o consumo deve ser momentos para o alcance disto e não, uma cultura de geradora de angústias.

O preço do conserto estimula consumidor a descartar aparelhos e comprar novo. Fabricado para ………….estragar e ser descartado. Foto: DW. Com https://www.dw.com/pt-br/mundo-produziu-quantidade-recorde-de-lixo-eletrônico-em-2016/a-41786249

4. COMPARTILHANDO LEITURAS:

Recordas 1972? Pois neste ano surgiu um relatório, (Clube de Roma + o MIT) essencial e por todos e, citado, revistos e acompanhados em todas conferências Mundiais sobre Meio Ambiente; Neste a metodologia desenvolvida, provava que o planeta terra, com o consumismo…estava em perigo. O “american way of live”, estava condenado, não poderia ser replicado para toda humanidade, etc… Estamos nos referindo a: MEADOWS, Dennis L et. al. Limites do crescimento. S.Paulo: Ed. Perspectiva, 1973, 2001p.; (procure em sebos urgente); Como sabemos, isto provoca o surgimento da espetacular e sempre atual síntese, FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974, 118p.; RAWORTH, Kate, Economia donut (uma alternativa ao crescimento a qualquer custo). Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2019,366p.; CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada. S.Paulo: Ed. UNESP, 2004,266p.; MAZZUCATO, Mariana. O valor de tudo (produção e apropriação na economia global). S.Paulo: portfolio-Penguin, 2020,412p.; LATOUCHE, Pierre. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. S.Paulo: Ed. wmf martins fontes, 2009,170p.; FORRESTER, Viviane. O Horror Econômico. S.Paulo: Ed. UNESP, 1997; LIPOVETSKY, Giles. O império do efêmero. S.Paulo: Cia. das Letras, 1987, 294p.; SCHUMACHER, E. F. O negócio é ser pequeno (um estudo da economia que leva em conta as pessoas).Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1977,262p.; BARBOSA, Livia. Sociedade de Consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2004, 69p.; FONTENELLE, Isleide Arruda. Cultura de consumo. Rio de Janeiro, Ed. FGV, 2017, 220p.; Fontenelle, apropriadamente recorda “as raízes” da grande mudança no que Hobsbawm batizou de dupla revolução (Francesa e industrial), vejam o clássico HOBSBAWM, Eric. A era das Revoluções (1789-1848). Rio de Janeiro: Paz e Terra, (12º edição), 1977, 366p.; e, do mesmo autor “A Era do Capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. PIKETTY, Thomas. Capital e Ideologia. Rio de Janeiro: Ed. Intrínsica, 2020, 1056 p.; BARRETO, Eduardo Sá. O capital na estufa:para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro, Ed. Consequência, 2012, 226p.; MOTIBELLER Filho, Gilberto. O mito do desenvolvimento sustentável (meio ambiente e custos sociais no moderno sistema produtor de mercadorias). Florianópolis, Ed. da UFSC, 2004,306p.;LÉNA, Philippe & NASCIMENTO, Elimar Pinheiro (orgs.). Enfrentando os limites do crescimento (sustentabilidade, decrescimento e prosperidade). Rio de Janeiro, Garamond, 2012, 44p.; GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. O decrescimento (entropia, ecologia, economia). S. Paulo, Ed. SENAC, 2012, 258p.;

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