
Este post (ensaio), está relacionado com o de desigualdades e o de tecnologias, deste site. Aborda um problema persistente, a fome. O mesmo se estrutura: 1. Sem comer não vivemos; 2. Números de uma tragédia persistente; 3. 50 anos de boas intenções… não resolveram; 4. Breves comentários sobre o “mercado” do que comemos; 5. Localizando a fome; 6. Comentários & Inquietações; 7. Para continuar.
Agradeço as sugestões da bióloga e nutricionista, Profa. Janaína Soares Monteiro Reisdorfer, essenciais para diminuir minhas dúvidas.
- SEM COMER NÃO VIVEMOS:
01. Sem comer não vivemos, como todos os faquires sabem. Como espécie biológica, necessitamos de uma ingestão regular de nutrientes, sem as quais nossa vida fica ameaçada. A falta dos mesmos ainda na gestação gera riscos para a parturiente e para o recém nascido; a falta na infância. originará deficiências físicas e/ou mentais, mortalidade infantil, etc.; e, as deficiências na vida adulta, continuará ameaçando a existência com fraquezas, doenças e maiores vulnerabilidade à morte. A obtenção de alimentos para as nossas necessidades biológicas, é o nosso mais antigo relacionamento com a natureza, é o laço que nos mantem em dependência com as demais espécies, com o meio-ambiente, base e suporte as relações familiares e soiais. Saciar a fome, é um desafio tão velho quanto a própria vida humana, ele provoca as migrações, os conflitos sociais, os discursos para esconder a realidade, para mobilizar mudanças, as políticas governamentais para administrarem o problema, enfim, a nossa vida cotidiana.
02. As alternativas para “matar a fome” são óbvias, ou: i. comemos o que conseguirmos coletar-caçar, direto da natureza; ii. plantamos e consumimos nosso próprio alimento; iii. compramos o que necessitamos para comer. As primeiras alternativas ou desapareceram ou, ainda se mantem em pequenas áreas. Vivemos num mundo, em que pagamos pelo alimento que necessitamos ou, passamos fome. Como te alimentas, diz muito o que és, a tua essência. Se consomes uma alimentação saudável, acessível, com nutrientes variados, preparada de forma tradicional, com equilíbrio de quantidade e qualidade, és um felizardo; No entanto, se não tens geladeira ou, a conta de luz está alta? Se as frutas e legumes estão caras na feira semanal do teu bairro? Se tens que decidir entre a passagem de ônibus e um saco de batatinhas crocantes (ultraprocessadas)? Se perdeste o emprego? Se vives de atividade informal, como “autônomo” e ficas doente? Se freqüentas um sopão de caridade? Se pensas roubar para comer? O acesso aos diferentes alimentos, em nossas sociedades de mercado, consumistas, urbanizadas, é desigual, resulta na existência de multidões, mais ou menos visíveis, de sub nutridos e famintos.
03. O direito à alimentação, assim como beber água, é vital para a espécie humana. O reconhecimento deste fato, é o estruturador de nossas primeiras organizações sociais, desde a revolução agrícola do neolítico a uns 12 mil anos. Para exemplificar, o Império Inca, era uma organização abrangendo a produção em diferentes biomas (deserto, encostas, altiplano, cordilheiras e Amazônia), utilizava suas diferenças, para garantir alimentos complementares para seus habitantes, com o propósito de dar nutrientes à todos. No entanto, com a conquista espanhola, a organização foi destruída, as terras foram privatizadas para poucos conquistadores, substituída as produções regionais, que atendia as necessidade de todos, pelos mono cultivos para atender o mercado europeu, gerando desequilíbrios, carências alimentares, resultando em doenças, fome, mortes e diminuição da população andina.
04. Afinal, o que todos necessitam, é boa nutrição a atenção de uma necessidade vital, básica. Ou seja, o consumo dos elementos nutritivos indispensáveis e, em quantidades necessárias, para o crescimento físico, desenvolvimento mental e, para a manutenção funcional de nossos tecidos e órgãos.
05. É necessário lembrar a distinção entre a má nutrição da desnutrição. A má nutrição ocorre por insuficiência nutricional em relação a determinada necessidade fisiológica ou, uma composição inadequada, desequilibrada da alimentação (falta e alguns ou excesso de outros). A má nutrição, pode coexistir com a desnutrição, que é, a queda do nível de nutrição necessário para a manutenção do organismo, afetando a saúde e atividade do mesmo. Caindo o nível alimentar abaixo de certo patamar, o organismo não tem mais poder de eliminar seu desgaste, ele queima os próprios tecidos para manter os essenciais, perde capacidade de resistência às agressões, adoece. Na verdade, é a velha fome, gerada pela ausência ou, impossibilidade de acesso aos alimentos. Seus efeitos são individuais, familiares e sociais. Persistem no tempo e afetam à todos indiretamente, multiplicando os gastos em saúde, afetando a capacidade de trabalho e de convivência dos seres humanos.
2. NÚMEROS DE UMA TRAGÉDIA PERSISTENTE:
06. Deixando a nossa longa história em que a fome esteve presente, vamos nos ater ao mais atual. As estimativas da população mundial indicam que somos uns 8 bilhões de pessoas em 2024. Para simplificar, imaginemos que somos apenas 100 pessoas que compartilham o planeta nos seus continentes, sendo a distribuição aproximada: A maioria, 57 estariam na Ásia; 18 na África; 10 na Europa; 9 na América Latina; 5 na América do Norte e.. 1, na Oceania. A fome, tem expressões e quantidades de pessoas afetadas, de forma diferente nestes continentes.
07. Ainda em 2015 os indicadores de aumento do problema da fome, em escala mundial, já se anunciavam. Em 2019, aproximadamente 8% da população da terra, já estava afetada pela fome. A Fome ultrapassava o crescimento populacional anual, em 2020 chegou a 9,9%da população total (ver o relatório “The State of Foof Security and Nutrition in the World”, FAO-UNICEF-OMS-FIDA-PMA, 2021). Foi necessário a pandemia do covid-19, para dar maior visibilidade ao problema. Se estima que entre 720 e 810 milhões de pessoas passaram fome em 2020, um acréscimo de 161 milhões em relação ao ano anterior. O problema da fome atinge na Ásia, a 418 milhões, na África uns 282 milhões e, na América Latina e Caribe 60 milhões de pessoas. A má nutrição persistiu, em 2020 talvez mais de 149 milhões de crianças menores de cinco anos sofriam de desnutrição crônica, já estavam abaixo da altura para a sua idade e, tragicamente mais de 45 milhões de desnutrição aguda. A alimentação saudável continua inacessível para uns 3 bilhões de adultos e crianças, devido ao alto preço dos alimentos. Este relatório dos organismos da ONU, afirma que em 2020 aproximadamente um de cada três pessoas no mundo, teve dificuldade de ter alimentos adequados e, que uns 12% da população da terra, foi afetada por insegurança alimentar grave.
08. Para não esquecer a nossa realidade, vejamos: A PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), é uma das melhores fontes brasileiras, pois tem o cuidado de usar, especificamente a EBIA (escala brasileira de insegurança alimentar) nos seus estudos. Os seus últimos dados constataram, que em 2020, 19 milhões de brasileiros estiveram em situação de fome (9% da população nacional). O dramático é que em 2018 (éramos 208 milhões de habitantes), uns 5%, ou seja 10,3 milhões, tiveram fome, um aumento muito rápido em pouco tempo, demonstrando a fragilidade da situação alimentar nacional e o impacto da pandemia. O Brasil que havia deixado de ser considerado um país com fome pela ONU, em 2014, voltava a vergonhosa estatística do “Mapa da Fome no Mundo”, situação que recentemente começou a melhorar.
09. Como os alimentos, devem ser comprados, assim os níveis de emprego e de renda, tem relação direta com a fome. Os dados da PENSSAM, confirmam os estudos do IBGE, com a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) de 2017-18, onde se constata uma relação direta entre emprego e renda e ter, ou não ter, fome. Não se constatava insegurança alimentar, de nenhum nível, em famílias em que a renda per capita era de um salário mínimo; No entanto, abaixo deste patamar de renda e, quando o chefe de família estava no setor informal ou desempregado, temos sempre a presença da fome na vida familiar.
3. 50 ANOS DE BOAS INTENÇÕES QUE …NÃO RESOLVERAM:
10. Vale recordar o que Jacques Chonchol em seu livro “O desafio Alimentar” cita a “Declaração Universal para Eliminação Definitiva da Fome e da Desnutrição”, firmada por 130 países, em Roma em 1974, que decidia, entre outros ítems que: “… daqui a dez anos, nenhuma criança deverá dormir com fome, que nenhuma família deverá viver no temor da falta de pão para o dia seguinte e que o futuro e a capacitação de qualquer ser humano não deverão ser comprometido pela má nutrição”. Como afirma o autor isto não sucedeu e, infelizmente, em 31 de dezembro de 1984 a fome mundial persistia.
11. Ou mais recente e, que foi também firmado em 2015 por todos os países e pelo Brasil, os famosos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável ODS, que criaram a Agenda 2030 pois este ano é a data limite para serem alcançadas as metas. Na mesma consta como prioritária claramente: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentaria e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”. Todos já são unânimes que isto não ocorrerá em 31/12/2030, como comprova a recente reunião do G-20 em 18-19 de novembro de 2024 no Rio de Janeiro, com a presença dos Presidentes dos principais países do mundo, afirmando em sua Declaração de Líderes do Rio de Janeiro, ao final dos trabalhos: “…Nós reconhecemos que a desigualdade dentro e entre os países está na raiz da maioria dos desafios globais e é agravada por eles. … O número de pessoas que enfrentam a fome aumentou, atingindo o número impressionante de aproximadamente 733 milhões de pessoas em 2023, sendo as mulheres e crianças as mais afetadas. … O mundo produz alimentos mais que suficientes para erradicar a fome. Coletivamente não nos faltam conhecimentos nem recursos para combater a pobreza e erradicar a fome. O que precisamos é de vontade política para criar as condições de expandir o acesso aos alimentos. Á luz disto lançamos a ALIANÇA GLOBAL CONTRA A FOME E A POBREZA“. Assim, constatamos mais uma promessa, agora liderada pelo Brasil e firmada no Rio de Janeiro, esperamos que os resultados não sejam pífios, como os dos acordos anteriores.

12. Recordamos, que só recentemente o Brasil entendeu o óbvio sobre nossa espécie e a cidadania, com a Lei 11.346 de setembro de 2006, onde consta em seu Art. 2º – A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagradas na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população”.
13. Assim como a declaração anteriores sobre o tema, não foram alcançadas, agora, os estudiosos, instituições de pesquisa, governos nacionais e organismos internacionais, ao constatarem a falta de mudanças nas razões de manutenção da fome, estão incrédulos sobre a solução deste problema até 2030 mas, cada vez mais reconhecem a urgência do persistente problema.
4. BREVES COMENTÁRIOS SOBRE O “MERCADO” DO QUE COMEMOS:
14. Um sistema alimentar, da produção ao consumo, envolve diferenciados componentes e atores, com suas peculiaridades e relações (cooperação, concorrência, coordenação, integração), nos espaços internacionais, nacionais, regionais e locais ( dos produtores, pelos transportadores [camionetas, caminhões, trens, barcos], armazenadores, comerciantes, processadores {indústria alimentar}, redes de atacadistas e supermercados, até os consumidores finais). Podemos ter realidades rurais distantes, de micro-regiões com pequenas cidades, regiões com cidades médias, de bairros suburbanos, cidades satélites, metrópoles, etc… O alimento, é uma mercadoria e, ao longo de diferentes operadores do sistema, mudará de formato, composição química, conteúdo nutricional e valor, e isto deve ser lembrado, quando abordamos a fome;
15. Sumariamente, o que influencia na disponibilidade geral de alimentos, num determinado espaço e tempo, podemos sintetizar em:
| A PRODUÇÃO E SEU LOCAL | Produção em propriedades familiares, empresariais, cooperativas; Produção diversificada ou monocultivo, regiões de especializações produtivas; Minifúndios, latifúndios, terras arrendadas; Nível de tecnificação (mecanização, agroquímicos,..) e de intensidade de uso de mão-de-obra; Insumos próprios, regionais, dependentes de multinacionais, etc..; Relação com o capital financeiro, subsídios, etc…; Distâncias de centros de venda e processamento; São fatores que afetam as decisões, quantidades e qualidades da produção; |
| CAPACIDADE DE TRANSPORTE, ESTOCAGEM E CONSERVAÇÃO | Distâncias, tipos de meios de transportes e propriedade dos mesmos (privada, estatal, cooperativa, multinacionais), afetam nos preços de frete; O mesmo ocorre, com a capacidade e forma de propriedade da rede estocagem de conservação dos alimentos; |
| USO DA BALANÇA COMERCIAL E DO CÂMBIO | Os alimentos são exportados livremente para a obtenção de divisas? Ocorre exportação, só após atender a demanda interna. Existe um limite para reserva alimentar? Liberdade para importar alimentos para manter os preços baixos ao consumidor? A liberdade de importação prejudica a produção local? O Câmbio encarece a importação de insumos? Etc… |
| LIBERDADE E/OU CONTROLE DO DESTINO DA PRODUÇÃO ALIMENTAR | Os alimentos são usados como matéria prima para outras atividades, como agro-carburantes, afetando a oferta dos mesmos no mercado interno e, afetando o preço dos alimentos para o consumidor. Assim como o câmbio, no mercado externo, as decisões do destino da produção primária (alimentar humana, alimentar animal, energética, exportação, etc…), pode ser do mercado, ou ter regulação. |
| SISTEMAS DE PRICESSAMENTO E DISTRIBUIÇÃO ALIMENTAR | Industrialização de alimentos (processados e ultraprocessados) por pequenas, médias e grandes empresas (nacionais e multinacionais), afetam a oferta, preços, e hábitos alimentares. Sistema de distribuição de alimentos (atacado-varejo) totalmente privado, misto, privado, cooperativo, estatal, associativo com monitoramento do Estado, etc… A rede de abastecimento, desde feiras livres, mercados municipais, grandes mercados públicos nas grandes cidades e capitais, CEASAs, ainda persistem, embora não priorizadas. O processo de concentração privada da distribuição, em redes de supermercados e atacadões, com a presença de multinacionais, está cada vez mais oligopolizado no Brasil. A forma de propriedade e o grau de concentração da rede de distribuição, é forte influenciadora de preços e vetor de manutenção e/ou mudanças de hábitos alimentares; Existe ou não, um sistema de oferta preparada de alimentos, articulando nos municípios as escolas (merenda), restaurantes universitários, populares, institucionais? |
16. O quadro anterior, nos subsidia sobre o que afeta as quantidades, disponibilidade e valores da mercadoria alimento, não devemos esquecer as nossas especificidades. Embora não caiba aqui, o Brasil, como os outros países, tem experiência em programas de distribuição de alimentos e controle de preços. N verdade, vai ser em 1938, com a Lei 399 de Getúlio Vargas, que surge a primeira lista dos produtos alimentares, no Brasil , para balizar o valor do salário mínimo nacional. Lembremos os trabalhos da SUNAB (Superintendência Nacional de Alimentação), o programa de distribuição de leite, o surgimento do CONSEA – Conselho de Segurança Alimentar. Programas reconhecidos internacionalmente, como a nossa merenda escolar, onde 4 milhões de crianças da rede pública escolar recebem alimentação diária, sendo que 30% da mesma vem da agricultura familiar, etc… A capacidade nacional para enfrentar a problemática da fome, desde Josué de Castro, evoluiu, não pode ser retirado da pauta dos governos mas, sempre teve avanços e retrocessos, balizados pelas tensões com o custo de vida, ou seja, com as pressões de industriais e dos comerciantes, para manterem os salários urbanos baixos e, por outro lado, de manter um preço mínimo para o produtor rural continuar produzindo alimentos. No entanto, para melhor ilustrar, vejamos os fatores que afetam a capacidade de consumo dos alimentos de um conjunto populacional:
| POPULAÇÃO TAMANHO E TAXA DE CRESCIMENTO | A quantidade de alimentos, depende do tamanho da população que o sistema alimentar atende. A sua composição, principalmente por faixa etária, caracteriza a necessidade nutricional por grupos de idade. A sua taxa de crescimento anual da população (positiva, negativa ou estagnada), afeta a demanda, maior ou menor, de alimentos; |
| DISTRIBUIÇÃO DA RENDA | Interessa a distribuição da renda domiciliar na população em geral. Afinal, os alimentos no nosso caso são uma mercadoria e sem controle de preços (tabelamento). Assim, em países com menos desigualdades a fome é menor, o que não é o caso do Brasil, um campeão em concentração de renda, em desigualdades. Se ocorre mais distribuição de renda, ocorre mais consumo de alimentos, entre os que antes não podiam comprar e, se ocorre desemprego, concentração de renda, isto resulta em diminuição, substituição de alimentos. |
| DESTINAÇÃO DA RENDA DOMICILIAR | A renda domiciliar é consumida em itens diversos como: moradia, vestuário, educação, saúde, alimentação, energia, transporte, cultura,.. As alterações de valores em uns, afetam os demais. O IBGE, constatou na POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) que no Brasil, a média de gasto com alimentação era 14,5% da renda familiar. No entanto, as famílias com rendimento até R$1.908,00 gastavam 22% com alimentação e, as com rendimento mensal de R$23.850,00, apenas 7,9%. |
| OS HÁBITOS ALIMENTARES | Comemos o que temos mais disponível no bioma que nascemos e crescemos, o que gostamos, o que nossas famílias (a cultura) nos ensinou a comer. As mudanças de hábitos alimentares pela vida urbana, processamento de alimentos, taxa de câmbio que facilita importações, políticas públicas que protejam ou abram o mercado para importar, geração de novos valores culturais, propaganda, etc.., afetam o consumo. Refrigerantes como a coca-cola, eliminaram outras bebidas que usávamos (recordam do guaraná antarctica?), afetaram a fruticultura em diversas regiões como plantações de guaraná na Amazônia, etc… |
17. Sentimos a ameaça e o lento desaparecimento dos sistemas tradicionais de produção e abastecimento. A substituição dos alimentos “in natura” de nossas vidas por produtos industrializados, prontos para o consumo (ultra processados), degradam as práticas alimentares tradicionais e acabam resultando problemas crônicos de saúde, pouco percebidos pelos consumidores.

18. Uma síntese do sistema predominante, de como o sistema agroalimentar está afetado pelo agronegócio, o ultra processamento de alimentos e, pautado pelo capital financeiro, temos apresentado no infográfico, (a nova versão dos hieróglifos) do trabalho da nutricionista Elaine Azevedo:

5. LOCALIZANDO A FOME:
19. Sabemos quem tem fome. Se o alimento é uma mercadoria, o menor acesso ao mesmo pelos pobres, resulta que estes, são os que tem fome. Concordamos, com os estudos que coincidem de que a fome, raramente é resultado de fenômenos naturais, que podem ser previstos, ela é produto de uma conjuntura econômica defeituosa, um produto da criação humana, sendo portanto passível de ser eliminada pela vontade do próprio homem. As guerras resultam em destruições, em desarticulações, mortes, movimentos populacionais e… fome. A FAO, em seus documentos recentes aceita uma “correlação” entre guerras e fome. Constatação verdadeira mas, que ao não esclarecer que estas guerras são geopolíticas, que estas fomes, foram resultados de agressões por interesses econômicos, de busca de controle de recursos estratégicos, minerais, fontes de energia, etc.., esconde as causas mais profundas do problema.
20. No Entanto o último estudo da FAO El estado de la seguridad alimentária y la nutrición en el mundo 2021, além de constatar o óbvio, que os conflitos, problemas climáticos e economia em crise, originam fome, reconhece também, que os países com baixa desigualdade social tem menos fomes do que, os com alta desigualdade, o que é o nosso caso, vejamos os dados globais:

21. Para nós do Brasil, para a América Latina e para o próprio mundo, foi Josué de Castro (1908-1973), que desvendou a verdade oculta, com o lançamento em 1946, do seu livro GEOGRAFIA DA FOME. Neste livro, temos a primeira sistematização nacional do tamanho do problema e, a sua síntese cartográfica aqui apresentamos:


22. O sucesso e os debates em torno da temática, levaram Josué de Castro a escrever GEOPOLÍTICA DA FOME, lançado em 1951, onde faz um traçado mundial do problema. Josué dirigiu a FAO, onde se desiludiu com as resistências dos países ricos, para a solução dos problemas dos países mais pobres, deixando a mesma. Em 1957, com o LIVRO NEGRO DA FOME amplia críticas e comentários ao problema. Todos conhecemos e nos orgulhamos da vida e obra de Josué de Castro, a ele devemos muito, desde sua influência de que o salário mínimo cobrisse necessidades alimentares mínimas, até os estudos sobre nutrições e instituições criadas por Vargas e, que posteriormente se multiplicaram. É célebre sua frase, que sintetiza a tragédia da não resolução deste problema de todos, ao afirmar: “Enquanto metade da humanidade não come, a outra metade não dorme, com medo da que não come”.
23. Nos acudimos novamente, do IBGE com a sua Síntese de Indicadores Sociais 2020, onde analisa as condições de vida da nossa população, com os dados de 2019:

24. Recordamos, no quadro anterior, que a medida de pobreza usada pela OCDE (Organization for Economic Cooperation and Development), se relaciona com os indicadores da Agenda 2030, com os quais o Brasil tem compromisso. Portanto, 24,4% da população nacional, estimada em 2019 em 209 milhões de pessoas , eram pobres, segundo o Banco Mundial. Devemos comparar a tabela anterior, com os dados da pesquisa da PENSSAM (ver parágrafo 8) que indicava 19 milhões de brasileiros com fome. No entanto, uma demonstração cartográfica, utilizando os parâmetros de linha de miséria do Banco Mundial, auxilia a ilustrar e …, comparar, com os cartogramas de Josué de Castro:

25. Espacialmente, a renda está mal distribuída e seu indicador mais trágico, a fome, confirma isto. Continua o Nordeste, como demonstrou o clássico Geografia da Fome à mais de 70 anos, uma triste mancha de população faminta brasileira. Mas, a fome dos brasileiros está em todas partes, no campo e na cidade, em maiores proporções em alguns lugares, do que em outros.
6. COMENTÁRIOS e/ou INQUIETAÇÕES:
26. A fome persiste e, tendências do passado histórico continuam influenciando. Nossa herança colonial com a escravidão e uma concentração fundiária excludente; nossa posição no mercado mundial como exportador de matérias-primas; Uma urbanização acelerada que, não conseguiu absorver a massa de expulsos do campo; A persistente negativa de distribuição mais equitativa da terra e a opção pela empresa agrária capital intensiva; A transnacionalização do agronegócio, da agroindústria de alimentos e do comércio atacadista; As dificuldades para consolidar um projeto de nação democrática, com predomínio crescente de padrões de consumo copiados, transladados prejudicando os produtores nacionais; Os poucos recursos e/ou descontinuidade de programas para diminuir as desigualdades, etc.., são fatos conhecidos
26. A fome persistirá, enquanto não resolvermos os entraves estudados e conhecidos tais como: i. Julgar que superávit na balança externa, resolverá o problema da fome, abandonando o enfoque necessários de soberania alimentar regional para todos; ii. Acreditar que a “industrialização” do sistema agroalimentar, da produção primária, até os ” alimentos ultraprocessados”, resolverão o problema da fome, ignorando a geração de trabalho, os problemas ambientais e de saúde cujos custos são de todos; iii. Acreditar que o Estado e as organizações sociais “atrapalham” o funcionamento do sistema agroalimentar, quando toda a experiência internacional e nacional, comprovam que sem os mesmos a situação seria mais explosiva, que a busca da”desregulação” do mesmo é fatal; iv. Não enfrentar o abastecimento urbano como prioridade, para gerar trabalho, diminuir custos pois a com a produção alimentar no espaço urbano e sub-urbano, rede de feiras moveis e fixas, controlar efetivamente a indústria alimentar, controle de preços, etc..; A desregulação de preços, o “livre” comércio (cada vez mais oligopolizado), de taxa de câmbio, enfim, a busca de lucro com o alimento como uma mercadoria que, não é igual as outras, resultaram em destruição de autonomias alimentares, em dependência de preços internacionais, em desemprego, concentração de renda, em fome com tensões sociais, urge retomar a planificação integrada, com a priopridade da segurança alimentar regional, para só depois, exportar; afinal esta é um princípio que gerou nossas organizações sociais, desde os primórdios remotos, em todos os continentes.
27. A grande agricultura tecnificada, filha da “revolução verde”, não é a única solução. Sim ela produziu muito, mas auxiliou a concentração de renda, expulsou mão-de-obra para as cidades, etc… A mesma realizou a “industrialização do campo” e tem limitações conhecidas. Seus custos sociais e ambientais são insustentáveis, sua dependência de combustíveis não renováveis, seus efeitos nos recursos hídricos, solo, saúde pública não são computados, não podendo por isto, abranger à totalidade da produção, sob enfoque de sustentabilidade e social. Ao favorecer a expulsão de massas para as cidades e, as mesmas não poderem dar trabalho, alimentou e ampliou a crise estrutural do sistema. O agronegócio persiste o modelo colonial do ciclo do açúcar, café, etc.., ao ganhar com a exportação, concentrar ganhos e socializar os custos sociais e ambientais.
28. Continuamos num impasse. A fome persiste, com tanta capacidade tecnológica disponível para um sistema agroalimentar eficiente, mas ela é uma ponta do iceberg do problema. Ou continuamos e passamos para uma Revolução Verde II, em que só sairão ganhando uns poucos ou, estruturamos um sistema de soberania agroalimentar para atender as necessidades essenciais dos seres humanos? Neste segundo caso, o trabalho e renda, o ambiente, os recursos hídricos e genéticos, serão parte essencial da equação no espaço regional, o bioma base da ação; Esta atividade, não podem ficar sob controle de decisões privadas, exigirão a co-gestão social e ativa participação do Estado, para planificar e operar, um necessário sistema agroalimentar que não poderá continuar a ser gerido em compartimentos, redes, canais descoordenados pela micro economia do lucro, resultando em insegurança alimentar permanente.
29. Comer bem dá alegria ao nosso viver. Comer faz parte de nossas vidas, familiares, amizades, social, da cultura de todos os povos. Comer, faz parte de nossas mais profundas relações sociais, o ato de amamentar o demonstra, os encontros familiares e de amigos, para anunciar um nascimento, os aniversários, o casamento, as festas religiosas, cívicas, institucionais, mesmo na tristeza da morte, nos velórios, nos alimentamos juntos, para diminuir a tristeza e compartilhar esperanças. Quando nos reunimos para comer, a alegria de estarmos juntos se multiplica, ela é conhecida, promovida, compartilhada e registrada (fotos, selfies), pois é um fato vital, cultural. A eliminação da fome é necessária e possível. A sua manutenção, é uma demonstração de nossa incapacidade política, um fator gerador de instabilidade, doenças, mortes e permanente tensão e conflitos sociais.
7. PARA CONTINUAR: Tomo a liberdade de sugerir: CASTRO, Josué. Geografia da Fome.: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro, Ed. antares (10ª Edição), 1984; GEORGE, Suzan. O mercado da fome (as verdadeiras razões da fome no mundo). Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1978, 307p.; GUIMARÃES, Alberto Passo. A crise agrária. Rio de Janeiro: Ed. Paz & Terra, 1982, 362 p.; CHONCHOL, Jacques. O desafio alimentar (a fome no mundo).S.Paulo: Ed. Marco Zero, 1987, 184p.; NETO, Miranda. Dominação pela fome (economia política do abastecimento). Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária.1988, 135p.; AMARAL, Discriminação e mistificação em alimentação (a FAO, a OMS, etc.. contra os povos subdesenvolvidos). São Paulo: Ed. Alfa-ômega, 1986, 169p.; FAO. Los alimentos y la población. Roma, Organización de las Naciones Unidas para la Agricultura u la Alimentación, 1976, 249p.; FAO-FIDA-OMS-PMA y UNICEF. El estado de la seguridad alimentária y la nutrición en el mundo 2021 (versión resumida). Roma, FAO, 2021, 44p.; IBGE, Síntese de Indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2020. Rio de Janeiro: IBGE, 125p; IBGE. POF (Pesquisa de Orçamento Familiares 2017-18. Rio de Janeiro, IBGE, 2019, 69p.; ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; PENSSAM. Inseguridad alimentária y covid-19 en Brasil. Brasília, Vox Populi, Ibirapitanga, Oxfan, 23p.; LINHARES, Maria Yeda Leite & SILVA, Francisco Carlos Teixeira. História política do abastecimento (1918-1974). Brasília, Min. de Agricultura (BINAGRI), 1979, 242p.; BRASIL – Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. Brasília: Min. da Saúde, 2014, 156p.; SILVA, Sandro Pereira. A Trajetória Histórica da Segurança Alimentar e Nutricional na Agenda Política Nacional: projetos, descontinuidades e consolidação. Brasília: IPEA (texto para discussão 1953), 2014, 82p.; AZEVEDO, Elaine de. Ultraprocessados, ultraesfomeados e o sistema alimentar moderno. Le Monde Diplomatique – Brasil. set/2021, ed. 166.


