01. Devemos ao botânico sueco Carlos Linneu (1708-1778), a classificação (taxonomia) biológica para todas plantas e animais, um avanço em relação à feita por Aristóteles na antiga Grécia. Com a publicação do seu pequeno livro, o Systhema Naturae em 1735, tivemos uma classificação que abarcava todos os seres vivos conhecidos, feita com flexibilidade para incorporação de novos, a serem descobertos. Nesta taxonomia, Linneu nos incluiu com as demais espécies, sob a denominação de Homo sapiens. Desde Linneu a classificação não para de se ampliar. Recordemos a intrigante descoberta de ossos de mamute, muito maiores que os dos atuais elefantes, assim como outros achados fósseis, como o primeiro dinossauro em 1824 e, o que ficou conhecido como Homos neanderthalensis (1859). O século XIX marca o avanço mais acelerado do conhecimento sobre a realidade do nosso mundo; lembrem que 1859, Charles Darwin publica a Origem das Espécies. A paleontologia, a arqueologia, as ações interdisciplinares da antropologia, biologia (botânica e zoologia), comparações anatômicas, geologia, estudos de DNA, uso da TI, aceleraram explicações, cobriram brechas e, criam novas indagações. No caso da nossa espécie, dos estudos iniciados na Europa, se expandiram para descobertas em outros continentes e, o nosso posicionamento no conjunto geral da evolução das espécies vai se enriquecendo. Os achados fósseis das espécies e, do Homo continuam, delineando uma complexa linha, com interrupções e/ou continuidades, em diferentes locais do planeta. Assim, os neanderthalensis, o cro-magnon, o pekinenses, o erectus, o habilis, são encontrados e classificados. Tudo indica que a Lucy – austrolopithecus aferensis, fóssil encontrado em 1974 na Etiópia, é nosso mais próximo antepassado.

02. No entanto, se demonstramos sabedoria no avanço em nossa capacidade de classificar os seres vivos e os fósseis encontrados, além disto, nas relações sociais de nossa espécie, continuamos com problemas, com conflitos, agravados com os impactos ambientais que estamos causando, extinguindo outras espécies e ameaçando até a nossa.
03. Um comprovante desta distorção, foi o surgimento da denominação homo economicus, criada pelos economistas (Stuart Mill), também no Século XIX, caracterizando um indivíduo “totalmente racional, com acesso a informações objetivas, movido por interesse individualista, sempre calculando obter maiores ganhos com menores custos”. Este indivíduo imaginado como paradigma desejado para o comportamento da espécie, foi a forma encontrada para explicar os preços como tendo origem no ponto de equilíbrio entre a oferta e a demanda de mercadorias. O esforço de explicar o ato mercantil da troca, escondia a verdade de que a humanidade se relacionou no passado e, atualmente também, doando-recebendo-retribuindo. O imaginário comportamento individualista para explicar os preços, mascara a realidade social. Os manuais econômicos simplórios, passaram a mercantilizar as relações sociais da espécie e influenciar as políticas públicas. A ampliação das desigualdades, as violências sociais e o sentimento de “falta de realização pessoal” que a espécie agora carrega, desnuda a inconsistência da denominação “homo economicus”.

04. Nos últimos anos, tem ocorridos propostas demonstrando desacordos com a terminologia “sábio” (sapiens) dada por Linneu. O fato de surgirem estas alternativas, novos adjetivos, são sinalizadores de dúvidas, de uma “crise existencial” de nossa espécie, pois não temos consenso sobre como nos denominamos.
05. O avanço tecnológico rápido, resulta na proposta do surgimento de um Homo tecnologicus? De fato, as capacidades geradas pelo controle da energia nuclear, tanto de extermínio, quanto de geração de eletricidade, nos fornecem poderes inimagináveis. Por outro lado, ao estudar criativamente a trajetória humana, Yuval Noah Harari em 2012 (Sapiens: uma breve história da humanidade), constatando os avanços científicos, a capacidade de criação de inteligência artificial, gerava a hipótese de uma nova etapa para a nossa espécie. Em 2015 em seu livro “Homo Deus: uma breve história do amanhã”, o mesmo autor indica tendências das mudanças profundas na espécie, indicando capacidade de vida longa, uma “amortalidade”. O poderio de matar massivamente à distância e ao mesmo tempo de criar vida inteligente, sempre foi relacionado com forças divinas em nossas mitologias e religiões. ao constatar que temos estes avanços, isto anuncia uma nova espécie?
06. Se Harari concorda com os avanços tecnológicos, também constata que seríamos uma espécie de deuses loucos, com dificuldades de usar o potencial que temos e, de eliminar as diferenças, desigualdades. No entanto, todos concordam que as espécies são complexas, não podendo se reduzir para a nossa, apenas o racionalismo de trocas de mercado como vetor dominante. Pois afinal, o que sempre caracterizou a nossa espécie é que necessita de relações sociais para suprir suas necessidades vitais, como já diziam os gregos “o homem, por natureza, é um ser social” , (Aristóteles 384-323 a.C.).
07. Assim, surgem da área econômica (Kate Raworth), argumentos da necessidade de pensarmos novas terminologias para nossa espécie, dando alternativas que considera essencial para termos um novo conceito do que somos, tais como: Homo euristicus, Homo altruísticus, Homo reciprocans, Homo socialis. Portanto, adjetivos que retornam ao conceito de Aristóteles.
O que somos? Que nome você escolheria para nossa espécie?
Ficou curioso? Sugerimos: DAWKINS, Richard. O gene egoísta. S.Paulo, Cia.das Letras, 2007; HARARI, Yuval Noah. Sapiens uma breve história da humanidade. Pôrto Alegre, P&PM pocket, 2018; Idem. Homo Deus uma breve história do amanhã.S.Paulo, Cia. das Letras, 2016; RAWORTH, Kate. Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo; FRANCISCO, Papa. carta encíclica FRATELLI TUTTI: sobre a fraternidade y la amistad social. Roma, Vaticano, 04/10/2020.

